Mexa-se sempre

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Duas semanas de inatividade já são suficientes para a diminuição dos músculos e o aumento da gordura


Ficard parado traz perdas significativas na força muscular e diminui a densidade mineral óssea
Ficard parado traz perdas significativas na força muscular e diminui a densidade mineral óssea - Pexels/Banco de imagens

Com a necessidade de distanciamento social é mais difícil encontrar a motivação para sair do sofá e ir para a rua se exercitar. Mas segundo a investigação feita por cientistas britânicos, duas semanas de inatividade física (cerca de 1.500 passos dados por dia) são suficientes para que as pessoas percam quantidades significativas de músculo, coincidindo com ganhos substanciais de gordura corporal, sobretudo ao redor da cintura. O impacto é maior entre os idosos.

Pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) em artigo de revisão publicado no American Journal of Physiology afirmam que o apelo feito por governantes e profissionais da saúde para que as pessoas "fiquem em casa" é válido na atual conjuntura, sem dúvida. Mas deve vir acrescido de uma segunda recomendação: "não fiquem parados".

"Uma pessoa precisa fazer ao menos 150 minutos de atividade física moderada a intensa por semana para ser considerada ativa, de acordo com as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e das sociedades médicas. O uso de academias e centros esportivos ficará limitado nos próximos meses, mesmo após o fim da quarentena. A atividade física realizada no ambiente domiciliar surge como uma alternativa interessante", disse à agência Fapesp Tiago Peçanha, pós-doutorando na Faculdade de Medicina da USP e primeiro autor do artigo, que apresenta uma série de evidências científicas relacionadas ao impacto de curtos períodos de inatividade física sobre o sistema cardiovascular.

O estudo

O estudo feito por especialistas da Universidade de Liverpool, no Reino Unido, mostra que os ganhos de gordura no tecido muscular estão associados a perdas significativas na força muscular; com o tempo de inatividade a reduzir também a densidade mineral óssea.

Este foi o primeiro estudo a analisar os efeitos de uma pausa de duas semanas, algo que pode acontecer por motivos de doença, condições climáticas adversas ou até simplesmente férias.

Mais anos de vida, mas com menos qualidade

Os participantes foram divididos em dois grupos. Antes do estudo, os 26 participantes mais jovens e 21 deles mais velhos, tinham o mesmo nível de atividade física e, durante um período de quatro dias, cada um deu mais de dez mil passos por dia, que não incluíam exercícios vigorosos. Avaliou-se depois se a saúde dos idosos era mais afetada pelo período de inatividade.

Essas mudanças motivam uma capacidade reduzida de realizar atividades diárias e podem dar origem a problemas de saúde crônicos. Isso é especialmente relevante, uma vez que se vive hoje mais tempo, embora o tempo gasto com a saúde não tenha aumentado na mesma proporção.

Embora as descobertas revelassem que o tamanho, a força muscular e a massa óssea reduziram igualmente nos grupos jovens e idosos após duas semanas de inatividade e de os dois grupos acumularem quantidades semelhantes de gordura nos músculos e em volta da cintura, os idosos apresentaram menos músculo e mais gordura. Isso mostra que o impacto é maior na população envelhecida, em comparação com os adultos mais jovens.

"O impacto grave da inatividade de curto prazo na nossa saúde é extremamente importante para comunicar às pessoas. Elas devem ser incentivadas a dar 10 mil passos, pois isso pode proteger contra reduções na saúde dos músculos e ossos, além de manter níveis saudáveis de gordura corporal", explica Juliette Norman, uma das autoras do estudo britânico.

Novas evidências

Dados divulgados nos últimos meses por empresas que comercializam relógios inteligentes e aplicativos para monitoramento de atividade física indicam queda no número de passos diários de seus usuários desde o início do confinamento.

"A norte-americana Fitbit, por exemplo, apresentou em seu blog em 22 de março, dados de 30 milhões de usuários que mostraram uma redução entre 7% e 33% no número de passos dados por dia. No Brasil, há um levantamento feito pelo pesquisador Raphael Ritti-Dias pela internet com mais de 2 mil voluntários. Mais de 60% afirmam ter reduzido seu nível de atividade física após o início da quarentena", diz Tiago Peçanha. "Ainda são evidências preliminares, mas há estudos em andamento que visam medir o efeito para a saúde da inatividade física durante a quarentena."