O vazio que nos preenche

Espiritualidade

O vazio que nos preenche

É preciso aprender a reconhecer este estado. As respostas, na maioria das vezes, estão dentro de nós


O vazio interno pode ser usado como um lugar de reflexão
O vazio interno pode ser usado como um lugar de reflexão - Pexels/Banco de imagem

Não raramente, você ouve alguém dizer: "Sinto uma sensação de vazio dentro de mim que não sei descrever ou dizer o que é." Embora com suas variações, as pessoas costumam falar deste vazio, desta carência. É como se dentro delas houvesse um lugar dentro no qual todos caíssemos em determinado momento da vida para não sair mais de lá, um espaço mal-assombrado. Mas que vazio é este, afinal?

Esta sensação de vazio e de carência já foi descrita pela filosofia, pela psicologia e pela literatura. É a busca pelo preenchimento que impulsiona o homem na investigação da razão de sua existência desde os primeiros tempos da humanidade. O problema é que, enquanto não descobrimos o que é, pensamos que esse "vazio" deve ser preenchido rapidamente e saímos, muitas vezes, metendo os pés pelas mãos. Provocamos um rombo no cartão de crédito comprando coisas que não precisamos, nos envolvemos em relacionamentos com pessoas com as quais não temos afinidade, comemos sem parar, bebemos mais do que devemos, convivemos com pessoas que nos fazem mal e andamos de um lado para outro, sem rumo à procura de algo que não sabemos o que é. Sempre com a intenção de preencher o vazio.

"Na verdade, criamos falsas máscaras para fingir que não somos ocos e nos envolvemos em atividades frenéticas para não se lembrar que o buraco na nossa autoestima continua lá", escreve em um artigo a psicóloga e escritora Patrícia Gebrim.

O que muita gente tenta responder é: qual a verdadeira dimensão das nossas faltas e carências? Por que as coisas materiais, os nossos objetivos de vida ou as pessoas à nossa volta nem sempre podem preencher este vazio da alma? Uma promoção no trabalho, um carro, uma casa, um desejo, um relacionamento surgem como promessas de felicidade no preenchimento de carências e vazios existenciais. A carência da nossa alma não é por algo físico, pois toda vez que optamos por essas respostas surge a frustração. Somos levados a reconhecer que o preenchimento do vazio da alma não deve estar em algo palpável, mas faz parte do universo das coisas que não podemos exprimir por palavras.

 

Não há nada errado com a sensação de que falta algo, de sentir-se incompleto. A resposta, garante Patrícia Gebrim, é simples. "Falta algo dentro de nós e sempre irá faltar. Não há como nos livrar desse vazio, mas podemos escolher o que fazer com ele. Podemos transformá-lo em um mar de lamentações, e navegar por ele por toda uma vida ou podemos criar algo construtivo." "Essa é a palavra-chave para transformar o vazio que existe dentro de nós no espaço mais sagrado que um dia seremos capazes de adentrar", complementa. Lao Tse, filósofo da China antiga, o pai do taoísmo, já falava sobre o vazio no ano 99 a.C em seu tratado, o Tao Te Ching: "Trinta raios convergem para o meio de uma roda. Mas é o buraco em que vai entrar o eixo, que a torna útil. Molda-se o barro para fazer um vaso; é o espaço dentro dele que o torna útil. Fazem-se portas e janelas para um quarto; são os buracos que o tornam útil. Por isso, a vantagem do que está lá assenta exclusivamente na utilidade do que lá não está", deixou escrito.

Existe até mesmo um lado positivo nesse vazio: identificar o que nos falta e lutar para atingir nossos objetivos. "Porém, muitas pessoas acabam se sentindo mal com esse vazio e acabam por tentar supri-lo antes mesmo de decifrá-lo. Essa carência é sempre sinônimo de que falta algo e muitas vezes não conseguimos identificar o que é. Mas, se pararmos para pensar, sempre nos faltará esse algo. Estamos vivos para evoluir e atingir sempre metas", explica a psicóloga Cláudia Ribeiro Rodrigues. Esses vazios, esse sentimento de carência, não são ruins. Eles só se tornam ruins quando não sabemos lidar com eles. Não podemos nos esquecer que temos a nosso lado a pessoa mais importante das nossas vidas: nós mesmos. Quando nos descobrimos uma boa companhia, deixamos de nos sentir carente afetivamente. Esses vazios só se tornam patológicos quando se transformam em 'muro de lamentações', podendo a vir a tornar uma obsessão e nunca ficarmos satisfeitos."Lidar com a carência é simplesmente respeitar nossos limites e aceitarmos até onde podemos ir para saná-la ou usá-la em beneficio próprio", diz Cláudia. O psicanalista francês Jacques Lacan afirmava que o vazio primordial alimenta a procura do homem por sua própria verdade. Para ele, a falta não é, em si, negativa ou indesejável, mas o poderoso estopim de uma busca interna que pode se tornar reveladora. É mais ou menos assim: "se espero conseguir algo, é porque me falta alguma coisa." Isso significa que a esperança primordial, aquela que alicerça todas as outras esperanças que habitam nosso coração é a nossa vontade de preencher esse vazio que nos consome. Mas viver entre a esperança e o medo de ter e ser ou não, pode se transformar em uma forma de tortura. Isso significa que, para não sofrer tanto com as expectativas, é preciso aceitar a vida como ela é e se reconciliar consigo mesmo."Desenvolvemos todas as capacidades e habilidades para viver sozinhos. Acontece que, no meio disso, existem as questões emocionais que provocam essa carência", diz o psiquiatra e psicanalista Luiz Alberto Py. Como superar? Cultivar a autoestima mais uma vez é a resposta. É preciso aprender a gostar de si mesmo porque as respostas, na maioria das vezes, estão dentro de nós.