SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | SEXTA-FEIRA, 24 DE SETEMBRO DE 2021
Espiritualidade

O silêncio que eleva

Impacto do isolamento pode promover reflexão sobre a vida interior e o mundo à sua volta

Gisele BortoletoPublicado em 13/06/2020 às 20:51Atualizado há 07/06/2021 às 01:21

O isolamento social trouxe impactos nas relações no cotidiano. As pessoas estão ficando mais em casa, longe da família e dos amigos, com mais horas livres. Este pode ser o período ideal para refletir sobre a vida interior e o mundo à sua volta. O período de afastamento pode despontar como tempo fecundo para o cultivo da espiritualidade. Um olhar para dentro pode trazer questões pertinentes à vida das pessoas, entre elas sobre o modo de viver e ações frente as diversas situações.

Espiritualidade é a consciência de que somos um fenômeno transcendente à vida concreta e material, ou seja, o homem não consegue explicar como veio ao mundo, como existe - de onde viemos e para onde vamos. "É ter consciência de que há uma força maior que rege o universo, e do qual somos uma partícula mínima em meio às outras partículas com várias qualidades parecidas e muito diferentes das nossas, mas que juntos fazemos funcionar esse grande conglomerado de energia que é o universo", diz o terapeuta Roberto Gwydion.

"Espiritualidade não é sinônimo de religião, cultos ou rituais e, muito menos, esoterismo. Ela representa a busca de propósito e de sentido no que fazemos", diz a consultora Margarida Ranauro. "Uma vez que há em cada um nós um impulso ao mistério e uma fome de transcendência e tudo aquilo que vivemos e que somos resultam de uma experiência interior, é possível tornar essa experiência consciente e desenvolvê-la", afirma Matheus Henrique Alves, especialista de pastoral da Rede Marista de Educação.

Tempo de desacelerar e ressignificar

O cotidiano desenfreado das cidades, a quantidade e a dispersão de informações e o incentivo ao consumo exacerbado têm contribuído para uma postura superficial diante da vida. "Isto é, por poucas vezes parar para refletir e buscar sentidos e significados nas ações, nas relações e nos impactos do que é produzido", diz Matheus Alves.

Ao longo da história, grandes crises sociais apontam para um movimento de ruptura que pode apresentar em meio às incertezas um apelo para reconfigurar a vida e relações, priorizando o que há de essencial nelas. "O cultivo de nossa espiritualidade nos ajuda a nos reconhecer a partir de dentro e a nos relacionarmos com as pessoas, tendo como referência o que é autêntico e profundo, a fim de encontrar um equilíbrio pessoal que repercute no meio social", afirma ainda.

"A espiritualidade não tem nenhuma relação com religião e sim propósitos de vida, paz interior e realização pessoal. Tem relação com missão de vida. Muitas vezes, as pessoas não tem objetivos, apenas sobrevivem. Não alimentam a alma, onde se encontra a nossa essência", explica Louise Soares, especialista em saúde integrativa. A sugestão, segundo ela, é cultivar o amor em todas as suas vertentes: alegria, paz e compaixão.

"É tempo de despertarmos para a consciência do cuidado: enxergar a realidade que nos cerca para além de nossa zona de conforto, questionar as desigualdades e mobilizar ações e recursos visando atenuar essas necessidades", diz Alves.

O homem atual vive deslumbrado com os bens materiais, que são colocados à sua disposição pela tecnologia que avança a cada dia através de uma propaganda que insiste em lançá-los como caminho da felicidade. Porém, quando adquiridos, não compram a solução para os verdadeiros problemas da alma, que são as frustrações, as angústias, a solidão e tantos outros. "Entretanto, espiritualizar-se não significa ser miserável, nem tão pouco deixar de desfrutar de maneira racional os bens materiais que o homem com sua inteligência e seu trabalho já criou", diz Chico Xavier no livro "Plantão de Respostas - Pinga Fogo" (ed. CEU). Espiritualizar-se, segundo ele, é conduzir a vida no caminho do bem, do amor ao próximo e da caridade material e espiritual; é fazer esforço constante para corrigir seus defeitos e domar seus maus instintos.

Caminhos para a mudança

Busque o silêncio interior: Em uma sociedade cercada de ruídos e de telas ao alcance da nossa mão, pequenos momentos de silêncio diário ajudam a se conectar, interiorizar. Para aprender a olhar para fora e compreender com maior sensibilidade a existência do outro, se faz necessário que antes ousemos olhar para dentro; precisamos encarar nossos silêncios internos e buscar refletir o sentido mais profundo de nossa existência. Repense com calma as prioridades diárias, as escolhas que precisará fazer e os impactos que elas terão para além de você e, caso seja necessário, ajuste a rota;

Conecte-se com a natureza: Mesmo em casa, há sempre uma janela, um terraço, árvores nos pátios, ou mesmo uma planta que pode ofertar um espaço de conexão. O ato de cultivar e contemplar a beleza da criação nos ajuda a conhecer, vivenciar e experimentar a natureza como espaço de vida que nos humaniza e nos educa para simplicidade e para a quietude;

Cultive a cultura do cuidado e da solidariedade: O cenário novo provoca a necessidade de assumir uma nova mentalidade e uma nova postura diante da vida, é um apelo radical e urgente que deve nos comprometer em todos os sentidos. Trata-se de estabelecer uma cultura do cuidado em contraposição a um mundo marcado pela naturalização do sofrimento e da indiferença. Por vezes somos tentados a vivenciar uma espiritualidade alienada e individualista, que tende a nos afastar da realidade, agindo como uma rota de fuga diante do sofrimento e das incertezas que nos afligem.

Fonte: Matheus Henrique Alves

 
Copyright © - 2021 - Grupo Diário da Região.É proibida a reprodução do conteúdo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização.
Desenvolvido por
Distribuido por