O silêncio que eleva

Espiritualidade

O silêncio que eleva

Impacto do isolamento pode promover reflexão sobre a vida interior e o mundo à sua volta


Mesmo em casa, há sempre uma janela, um terraço, árvores nos pátios, uma planta que pode ofertar um espaço de conexão
Mesmo em casa, há sempre uma janela, um terraço, árvores nos pátios, uma planta que pode ofertar um espaço de conexão - Pixabay/Banco de Imagens

O isolamento social trouxe impactos nas relações no cotidiano. As pessoas estão ficando mais em casa, longe da família e dos amigos, com mais horas livres. Este pode ser o período ideal para refletir sobre a vida interior e o mundo à sua volta. O período de afastamento pode despontar como tempo fecundo para o cultivo da espiritualidade. Um olhar para dentro pode trazer questões pertinentes à vida das pessoas, entre elas sobre o modo de viver e ações frente as diversas situações.

Espiritualidade é a consciência de que somos um fenômeno transcendente à vida concreta e material, ou seja, o homem não consegue explicar como veio ao mundo, como existe - de onde viemos e para onde vamos. "É ter consciência de que há uma força maior que rege o universo, e do qual somos uma partícula mínima em meio às outras partículas com várias qualidades parecidas e muito diferentes das nossas, mas que juntos fazemos funcionar esse grande conglomerado de energia que é o universo", diz o terapeuta Roberto Gwydion.

"Espiritualidade não é sinônimo de religião, cultos ou rituais e, muito menos, esoterismo. Ela representa a busca de propósito e de sentido no que fazemos", diz a consultora Margarida Ranauro. "Uma vez que há em cada um nós um impulso ao mistério e uma fome de transcendência e tudo aquilo que vivemos e que somos resultam de uma experiência interior, é possível tornar essa experiência consciente e desenvolvê-la", afirma Matheus Henrique Alves, especialista de pastoral da Rede Marista de Educação.

Tempo de desacelerar e ressignificar

O cotidiano desenfreado das cidades, a quantidade e a dispersão de informações e o incentivo ao consumo exacerbado têm contribuído para uma postura superficial diante da vida. "Isto é, por poucas vezes parar para refletir e buscar sentidos e significados nas ações, nas relações e nos impactos do que é produzido", diz Matheus Alves.

Ao longo da história, grandes crises sociais apontam para um movimento de ruptura que pode apresentar em meio às incertezas um apelo para reconfigurar a vida e relações, priorizando o que há de essencial nelas. "O cultivo de nossa espiritualidade nos ajuda a nos reconhecer a partir de dentro e a nos relacionarmos com as pessoas, tendo como referência o que é autêntico e profundo, a fim de encontrar um equilíbrio pessoal que repercute no meio social", afirma ainda.

"A espiritualidade não tem nenhuma relação com religião e sim propósitos de vida, paz interior e realização pessoal. Tem relação com missão de vida. Muitas vezes, as pessoas não tem objetivos, apenas sobrevivem. Não alimentam a alma, onde se encontra a nossa essência", explica Louise Soares, especialista em saúde integrativa. A sugestão, segundo ela, é cultivar o amor em todas as suas vertentes: alegria, paz e compaixão.

"É tempo de despertarmos para a consciência do cuidado: enxergar a realidade que nos cerca para além de nossa zona de conforto, questionar as desigualdades e mobilizar ações e recursos visando atenuar essas necessidades", diz Alves.

O homem atual vive deslumbrado com os bens materiais, que são colocados à sua disposição pela tecnologia que avança a cada dia através de uma propaganda que insiste em lançá-los como caminho da felicidade. Porém, quando adquiridos, não compram a solução para os verdadeiros problemas da alma, que são as frustrações, as angústias, a solidão e tantos outros. "Entretanto, espiritualizar-se não significa ser miserável, nem tão pouco deixar de desfrutar de maneira racional os bens materiais que o homem com sua inteligência e seu trabalho já criou", diz Chico Xavier no livro "Plantão de Respostas - Pinga Fogo" (ed. CEU). Espiritualizar-se, segundo ele, é conduzir a vida no caminho do bem, do amor ao próximo e da caridade material e espiritual; é fazer esforço constante para corrigir seus defeitos e domar seus maus instintos.

 

Busque o silêncio interior: Em uma sociedade cercada de ruídos e de telas ao alcance da nossa mão, pequenos momentos de silêncio diário ajudam a se conectar, interiorizar. Para aprender a olhar para fora e compreender com maior sensibilidade a existência do outro, se faz necessário que antes ousemos olhar para dentro; precisamos encarar nossos silêncios internos e buscar refletir o sentido mais profundo de nossa existência. Repense com calma as prioridades diárias, as escolhas que precisará fazer e os impactos que elas terão para além de você e, caso seja necessário, ajuste a rota;

Conecte-se com a natureza: Mesmo em casa, há sempre uma janela, um terraço, árvores nos pátios, ou mesmo uma planta que pode ofertar um espaço de conexão. O ato de cultivar e contemplar a beleza da criação nos ajuda a conhecer, vivenciar e experimentar a natureza como espaço de vida que nos humaniza e nos educa para simplicidade e para a quietude;

Cultive a cultura do cuidado e da solidariedade: O cenário novo provoca a necessidade de assumir uma nova mentalidade e uma nova postura diante da vida, é um apelo radical e urgente que deve nos comprometer em todos os sentidos. Trata-se de estabelecer uma cultura do cuidado em contraposição a um mundo marcado pela naturalização do sofrimento e da indiferença. Por vezes somos tentados a vivenciar uma espiritualidade alienada e individualista, que tende a nos afastar da realidade, agindo como uma rota de fuga diante do sofrimento e das incertezas que nos afligem.

Fonte: Matheus Henrique Alves