Passado, um guia para o futuro

Saúde emocional

Passado, um guia para o futuro

A memória de fatos vividos afetivamente faz parte da vida e, desde que seja trabalhada de forma positiva, pode ser evocada com equilíbrio


Não tão raramente todos nós costumamos para e lembrar de coisas que ficaram lá atrás
Não tão raramente todos nós costumamos para e lembrar de coisas que ficaram lá atrás - Pixabay/Banco de Imagens

Não tão raramente todos nós costumamos parar e lembrar de coisas que ficaram lá atrás. Lembramos das conversas na hora do jantar quando a família se reunia na casa dos pais, da macarronada na casa da avó no domingo, daquele antigo namorado (a) a quem tanto nos afeiçoamos, dos amigos que já fizeram parte da nossa história, mas que por um motivo ou outro não permaneceram nas nossas vidas. Até aí, lembrar é normal. Faz parte do ser humano cultivar as memórias, principalmente aquelas que nos deixam felizes.

"O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente", escreveu o poeta Mário Quintana (1906-1994). Entretanto, muitas vezes, essa fixação pelo passado torna-se nociva quando passamos a maior parte do tempo pensando no que ficou para trás no tempo e no espaço ou idealizamos uma situação a ponto de só fantasiarmos, nos prendemos em uma realidade e impede um desenvolvimento no presente. Muitas vezes idealizamos o passado que vem a nós editado e transformado quando achamos que tudo de bom já aconteceu lá atrás.

"Acontece que nem sempre esse passado foi tão maravilhoso. Os melhores momentos são editados pela nossa mente, assim como quando se editam imagens de um jogo de futebol, o que faz com que pareça que ele tenha sido ótimo", diz o psicanalista Paulo Sternick. "Aí, quando comparado com o presente, o momento atual perde porque não é ainda objeto de uma fantasia."

 

Por outro lado, é importante para o ser humano não se desligar completamente do passado e integrá-lo ao presente. Isso mantém viva as memórias, a lenda que a pessoa carrega dentro dela mesmo. Isso desde que esse passado esteja desintoxicado do aspecto melancólico e da depressão, consideradas patologias. A memória de fatos vividos afetivamente faz parte da vida humana e, desde que sejam trabalhadas cognitivamente pela pessoa de forma positiva, pode ser evocada de forma equilibrada. "Mas se lembrança virar um foco de atenção ou de obsessão, passa a ser prejudicial e é um sintoma de patologia, que precisa ser tratada", explica a psicóloga cognitivo-comportamental Fátima Cristina Ferreira.

Não devemos nos esquecer que como tudo na vida, essa história também tem dois lados: o positivo e o negativo. "Se a memória trouxer emoções, sentimentos ou comportamentos positivos ela faz bem ao ser humano que a evoca, mas se produzir efeitos negativos, deve ser evitada", diz ainda.

Busque fontes de satisfação no presente: Isso vai depender do gosto de cada um, de acordo com sua singularidade. Pode ser uma fonte que tenha dado, que dê ou que dará satisfação;

Relativize o passado: É importante manter sua lenda pessoal, mas tenha em mente que ele não foi tão bom assim. Ele teve lados bons e ruins e isso está sendo editado pela nossa mente. O presente não está tão ruim assim;

Aumente as fontes de satisfação no presente: Planeje o futuro dentro de suas condições atuais. O presente é a única vida que pode ser vivida, já que o passado não volta e temos apenas esperança no futuro;

Planeje ações: Faça planos de ações para serem executadas no presente e também no futuro.

Fonte: Paulo Sternick, psicanalista 

 

O passado, na verdade, deve servir de guia para que possamos viver no futuro com muito mais facilidades e muito menos riscos. A primeira coisa que devemos ter em mente é saber o que fazer a partir de tudo isso. "Essa pergunta nos dá uma condição para tirar o melhor proveito e transformar a situação presente", explica a psicóloga Vera Saldanha.

Existem duas armadilhas perigosas na forma de encarar o passado: uma é o sentimento de raiva que leva a culpá-lo por toda a dificuldade atual e a segunda, fingir que algo não aconteceu. Você não precisa brincar de Pollyana, personagem da escritora norte-americana Eleanor Porter (1868-1920), e fingir que tudo foi maravilhoso. O mais importante é olhar e saber que aconteceram coisas difíceis sim, mas entender o que você pode fazer com aquilo. Isso te coloca numa condição de perdão e muitas vezes de gratidão com a vida que você recebeu e a compreensão de que, se não foi diferente, é porque as pessoas não sabiam fazer diferente.

"Se você olhar os desafios do passado e tem a consciência que sobreviveu, você sente que tem a força da criatividade e da possibilidade de novos horizontes e possibilidades para sua vida", diz Vera. Se você sobreviveu a isso, irá fazer muito melhor daqui por diante. "Lembro-me do passado, não com melancolia ou saudade, mas com a sabedoria da maturidade que me faz projetar no presente aquilo que, sendo belo, não se perdeu", escreveu a escritora e tradutora Lya Luft.