O DNA do amor

Comportamento

O DNA do amor

Ciência associa variação em gene como responsável por demonstração de afeto


Não é de hoje que a ciência tenta entender o que leva as pessoas a se apaixonarem
Não é de hoje que a ciência tenta entender o que leva as pessoas a se apaixonarem - Pixabay/Banco de Imagens

Sabe aquela sensação de frio na barriga e coração disparado quando gostamos de alguém? O que está por trás dos corações dos apaixonados? Embora as respostas sejam na maioria das vezes inconclusivas, a ciência volta e meia tenta encontrar uma explicação. Desta vez, os pesquisadores queriam descobrir quais os reflexos dos relacionamentos amorosos que podem ser vistos nos nossos genes.

Os investigadores do Departamento de Psicologia da Universidade de McGill, no Canadá, foram em busca desses espelhos e analisaram o comportamento e informação genética de casais. Eles descobriram pela primeira vez que variável em um gene chamado CD38 podem estar associadas a dinâmicas nos relacionamentos românticos humanos no dia a dia e torna mais natural a habilidade de demonstrar afeto e apoio ao parceiro. A conclusão do trabalho foi publicada na última revista Scientific Reports. Em contrapartida, os voluntários com outras variantes genéticas tiveram mais dificuldade de demonstrar afeto espontaneamente.

Para o estudo, a equipe coordenada pela pesquisadora Jennifer Bartz analisou dados de 111 casais heterossexuais. Os voluntários relataram o seu comportamento social, nomeadamente quando sorriam ou riam uns para os outros, quando faziam comentários sarcásticos, quando perguntavam se o parceiro queria fazer alguma coisa ou lhe davam algo. Também contaram qual a sua percepção do comportamento do seu parceiro e os seus sentimentos durante as interações com ele durante 20 dias.

Os pesquisadores obtiveram a informação genética de 118 dos 222 participantes, sendo 65 mulheres e 53 homens. Eles constataram que uma variação no gene CD38 (a CD38.rs3796863) estava associada ao comportamento comunitário dos indivíduos, o que inclui a demonstração de carinho nas interações do dia a dia.

A ciência já tinha conhecimento que o gene CD38 está envolvido na secreção de ocitocina, chamada de hormônio do amor e ao comportamento de apego nos roedores. Também há algumas provas de que a ocitocina tem um papel nos relacionamentos românticos humanos.

A variação no gene CD38 nos humanos tem duas variantes (ou alelos): a A e a C. Portanto, o gene pode estar presente em três combinações (ou genótipos) - a AA, a CC e a AC. Os pesquisadores observaram que era mais provável que os indivíduos com o genótipo CC relatassem que tinham um comportamento de companheirismo maior com os seus parceiros do que os indivíduos com os genótipos AA e AC.

Também era mais provável que as pessoas com a combinação CC reparassem como os seus companheiros se comportavam em comunidade ou que tivessem sentimentos negativos como a preocupação, a frustração ou raiva. Constataram também que esses indivíduos contavam que tinham tido níveis mais elevados de "ajustes" nas suas relações, bem como nas percepções de qualidade do relacionamento.

Por fim, detectou-se que o comportamento dos indivíduos, a sua percepção dos comportamentos do parceiro ou os ajustes nas suas relações estavam relacionados não só com o genótipo da própria pessoa, mas também com o do seu companheiro. Com as observações, sugere-se que variantes no CD38 possam ter um papel nos comportamentos e nas percepções que sustentam os vínculos nos humanos.

Como este gene está envolvido na secreção de ocitocina, os pesquisadores garantem que o estudo também apoia a afirmação de que esse hormônio tem influência nos processos interpessoais que servem para manter as relações românticas próximas. "Pela primeira vez, demonstramos que o CD38, um gene ligado à secreção de ocitocina e ao comportamento social nos roedores, também está envolvido na regulação do comportamento comunitário nas dinâmicas das relações românticas humanas como as que se desenvolvem na vida diária", explica Gentiana Sadikaj, primeira autora do artigo.

Em julho, a equipe liderada por Jennifer Bartz já havia publicado um outro artigo na revista científica Molecular Psychiatry sobre o papel da biologia na insegurança das relações amorosas. Ao analisar o que 100 casais heterossexuais fizeram durante três semanas, verificou-se que uma variante genética no sistema opioide (que está relacionado com a dor ou a recompensa) podia estar, em alguns casos, associada a sentimentos de insegurança em relacionamentos românticos.

Num dos seus próximos trabalhos investigará se o gene CD38 poderá ter influência na sobrevivência de um relacionamento romântico. "Percebemos que o CD38 estava associado à qualidade de uma relação romântica. Portanto, podemos esperar que poderá ter implicações na longevidade desse relacionamento", explica Jennifer Bartz. Ela também está interessada em saber quais são as vias pelas quais o gene pode influenciar o resultado de uma relação, ou seja, as ligações do gene a funções do cérebro e ao comportamento.