Talvez você deva conversar com alguém

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Talvez você deva conversar com alguém

Em novo livro, Lori Gottlieb fala sobre a importância de sermos ouvidos, mas também de sabermos ouvir


Conversar e se abrir com alguém são necessidades que levam alguém à terapia
Conversar e se abrir com alguém são necessidades que levam alguém à terapia - Pexels/Banco de imagens

Conversar e se abrir com alguém são necessidades que as pessoas estão procurando suprir para enfrentar o medo, a ansiedade e a incerteza neste momento. Tudo começa com um problema atual. Por definição, o problema atual é o motivo que leva uma pessoa a procurar terapia. Pode ser um ataque de pânico, a perda de um emprego, uma morte, um nascimento, uma dificuldade de relacionamento, uma inabilidade para tomar uma decisão importante, ou um estado de depressão.

"Às vezes, o problema atual é menos específico, uma sensação de estagnação ou a sensação vaga, mas persistente, de que exista algo errado", escreve a terapeuta norte-americana Lori Gottlieb em seu novo livro "Talvez Você Deva Conversar com Alguém - Uma terapeuta, o terapeuta dela e a vida de todos nós". A obra - que ficou várias semanas consecutivas na lista dos mais vendidos do The New York Times quando foi lançada nos Estados Unidos, acaba de ser lançada no Brasil pela editora Vestígio.

"Seja qual for o problema, ele geralmente acontece porque a pessoa chegou em um ponto de inflexão em sua vida. Viro para a esquerda ou para a direita? Tento preservar o status quo, ou entro em um território inexplorado? Mas as pessoas não se preocupam com seus pontos de inflexão quando chegam na primeira sessão de terapia. Na maioria das vezes, só querem um alívio. Querem contar suas histórias, começando com seu problema atual", escreve ainda.

Aí surge um fato que talvez você não se lembre: seu terapeuta é um ser humano. Eles têm dias bons, dias ruins e seu próprio conjunto de lutas pessoais. Eles, assim como Lori Gottieb, podem até fazer terapia também. E para desmistificar a figura do terapeuta inabalável, ela decidiu escrever sobre isso.

O livro está sendo adaptado para um seriado no canal norte-americano ABC. Nos 58 capítulos é possível acompanhar as jornadas de quatro personagens que frequentam seu divã: um arrogante produtor de Hollywood, uma professora jovem, que luta contra um câncer; uma mulher divorciada com planos de se matar; uma garota ansiosa que tem problemas com a bebida, e o próprio processo dela de retorno à terapia como paciente.

A intenção, segundo a autora, é revelar nossa humanidade comum e desconstruir tabus em torno da terapia. "Muitas vezes as pessoas não fazem terapia porque acham que algo tem de estar muito errado para procurarem ajuda ou porque têm vergonha, mas é muito importante que reconheçam que a saúde emocional é tão importante quanto a saúde física", diz.

No livro, enquanto tenta lidar com seus próprios problemas, a terapeuta tem de ajudar os outros, seus pacientes. Segundo ela, é importante neste momento, em que muitos estão sofrendo e tendo contato com o sofrimento de outros, reconhecer a própria dor e não tentar apagar o que se está sentindo relativizando ou diminuindo ao comparar com as dores de outros.

"Quando pensamos que outra pessoa está sofrendo mais, nos sentimos culpados de focar nossa própria dor. É importante que as pessoas saibam que dor é dor e não há hierarquia para ela", escreve. E continua: "Se não reconhecemos aquilo que sentimos, isso vai aparecer de outras formas, talvez a pessoa fique mais irritada com os outros, ou talvez não consiga dormir, ou coma demais ou beba demais, ou passe muito tempo rolando páginas na internet."

E escreve ainda: "Se pararmos de nos distrair do que sentimos, o que não é saudável e começarmos a lidar com isso, será possível encontrar formas de nos sentirmos melhor."

No livro, a terapeuta fala muito sobre o que é preciso para as pessoas mudarem. "Mudar é difícil porque junto com a mudança - mesmo uma mudança positiva - vem a perda. Temos que abandonar hábitos que, embora talvez não sejam os mais saudáveis, pelo menos nos parecem familiares e nos protegem de alguma forma. E então temos que nos aventurar no novo, que vem com incerteza. Muitas vezes as pessoas sabem exatamente o que precisam fazer para mudar - a questão não é 'o que devo mudar', mas 'por que não faço isso?'", diz ainda. O livro é uma jornada de autodescoberta e um lembrete de sermos ouvidos, mas também de sabermos ouvir.

Rohina Hoffman

Lori Gottlieb

Além de sua prática clínica como terapeuta, escreve a coluna semanal de conselhos "Dear Therapist", da revista The Atlantic, e contribui regularmente com o New York Times e muitas outras publicações. Já escreveu centenas de artigos relacionados a psicologia e cultura, muitos dos quais se tornaram sensações na internet. É uma especialista requisitada com frequência por mídias como The Today Show, Good Morning America, The CBS Early Show, CNN e NPR.