Não basta ser pai

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Não basta ser pai

No Dia dos Pais, uma reflexão sobre o papel do homem na vida dos filhos


Muitos pais passaram a cuidar dos filhos durante a pandemia
Muitos pais passaram a cuidar dos filhos durante a pandemia - Freepik/Banco de Imagens

O mundo mudou, a vida se tornou mais acelerada e, junto com eles, as relações familiares também sofreram mudanças. Atualmente, não são poucos os casos de mães que continuaram a trabalhar fora e, com os pais em home work, a tarefa de cuidar dos filhos, passou a ser uma rotina na vida de muitos homens. Mais do que antes. E o resultado é melhor do que o esperado.

Um estudo exclusivo da Ipsos, realizado em parceria com o Instituto Global para a Liderança Feminina do King's College London, mostra a percepção da população de 27 países, incluindo o Brasil, sobre igualdade entre homens e mulheres no que se refere à responsabilidade de cuidar das crianças e do lar. Aproximadamente 26% dos brasileiros acreditam que "um homem que fica em casa para cuidar dos filhos é 'menos homem'", uma opinião não diferente entre homens e mulheres. "Apesar de a minoria dos brasileiros referir que um homem é "menos homem" por estar em casa e cuidar dos filhos, não dá para fechar os olhos e achar que isso reflete que estamos em uma época distinta do passado não distante, onde o papel do homem está atrelado ao mantenedor do lar", afirma Rafael Lindemeyer, diretor de clientes na Ipsos.

Nos últimos anos, a ciência passou a estudar mais o impacto do envolvimento paterno no desenvolvimento infantil. Até há alguns anos, o interesse era focado na relação mãe-filho. "Um pai presente não apenas alivia a sobrecarga da mulher. Ele também aumenta as possibilidades de a criança alcançar melhores resultados cognitivos e emocionais ao longo do tempo, indicam pesquisas recentes", diz Elizabeth Barham, professora de psicologia social da Universidade Federal de São Carlos. O problema é que muitos pais não estão tão presentes, também mostram pesquisas.

Crianças no Reino Unido com pais participativos no primeiro ano de vida apresentaram mais vocabulário aos dois e três anos do que aquelas que não contaram com os cuidados paternos mais diretos quando bebês. A conclusão de um estudo feito pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que acompanhou 20 mil crianças.

O trabalho indicou que os ganhos foram maiores quando os pais se envolveram em atividades como trocar fralda, leram para os filhos e fizeram brincadeiras com eles. As crianças chegaram à pré-escola nos Estados Unidos com mais habilidades de leitura e matemática foram justamente as que com pais participativos no primeiro ano de vida, segundo a mesma pesquisa, que acompanhou por seis anos o desenvolvimento das crianças.

Em outro trabalho feito pela Universidade de Montreal, no Canadá, e que revisou pesquisas sobre o tema, lembra a importância do papel do pai para explicar os resultados sempre positivos nesses estudos. Segundo o texto, o pai incentiva o filho a se abrir ao mundo, a se aventurar e a se levantar sozinho. "O homem mostra à criança valores e visão diferentes dos da mulher", diz a Elizabeth Barham. Os ganhos, segundo ela, ocorrem quando o pai complementa, e não substitui a mãe. Pesquisa feita por Barham com cem famílias no interior paulista sugere que crianças com pai presente no cotidiano têm menos problemas de comportamento na escola.

Do ponto de vista da psicanálise, afirma o professor Cesar Ibrahim, a função paterna é impor limites"'Não pode cuspir na vovó', 'não pode assistir TV o dia todo'. O responsável pela função paterna deve mostrar isso. Sem a delimitação, haverá recusa às regras e à aprendizagem quando a criança crescer, explica. Essa função pode ser exercida pelo pai ou por outra pessoa do convívio da criança.

Para Mauro Luis Vieira, coordenador do núcleo de desenvolvimento infantil da Universidade Federal de Santa Catarina, o envolvimento paterno tem crescido mas o caminho ainda é longo. "Há pais que continuam vendo a criação do filho como coisa de mãe, e outros se retraem, por não saberem como agir ou por serem inibidos pela mãe", explica.

Contradição

Uma pesquisa nacional feita com mais de 2 mil pessoas pelo Ibope e a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal identificou no tema uma contradição entre a situação ideal e a real. Enquanto 92% dos pesquisados concordaram com a afirmação de que o pai deve participar da criação dos filhos, apenas 47% das mães disseram que eles estavam sempre presentes.