O elogio da lentidão

Comportamento

O elogio da lentidão

Reflexões produzidas pelo cérebro exigem um processo mental lento para serem elaboradas


Cérebro exige processo mental mais lento para refletir
Cérebro exige processo mental mais lento para refletir - Freepik/Banco de Imagens

Nos últimos anos fomos forçados a um dinamismo cada vez mais frenético, repleto de compromissos ou anulações de compromissos, enquanto a tecnologia produz instrumentos que visam a rapidez e a velocidade, tornando os dispositivos digitais constantemente desatualizados, tal é a rapidez com que evoluem.

A verdade é que parece que o mundo está sob o signo da velocidade. "O triunfo da técnica, a onipresença da competitividade, o deslumbramento da instantaneidade na transmissão e recepção de palavras, sons e imagens e a própria esperança de atingir outros mundos contribuem, juntos, para que a ideia de velocidade esteja presente em todos os espíritos e a sua utilização constitua uma espécie de tentação permanente", escreveu o geógrafo Milton Santos, autor livro "A Natureza do Espaço" (Ed. Hucitec).

E complementa: "Ser atual ou eficaz, dentro dos parâmetros reinantes, conduz a considerar a velocidade como uma necessidade e a pressa como uma virtude. Quanto aos demais não incluídos, é como se apenas fossem arrastados a participar incompletamente da produção da história."

Mas quem disse que os processos mentais têm de acompanhar a rapidez dos dias de hoje? "Essa velocidade exacerbada, própria de uma minoria, não tem e nem busca sentido. Serve à competitividade violenta, coisa que ninguém sabe para o que realmente serve, de um ponto de vista moral ou social", escreveu ainda Santos. E de nada adianta argumentar com o celular tocando sem parar, com mensagens de WhatsApp exigindo uma resposta rápida e com o fato de estarmos constantemente ligados. Essas não são, pelo menos para Lamberto Maffei, neurocirurgião e cientista italiano, justificativas convincentes.

Em seu livro "Elogio da Lentidão", o neurocirurgião procura desmistificar o mito da velocidade. Neste estado doentio de hiperatividade, Maffei lembra que o cérebro sempre exigiu um processo mental lento. Na obra, ele diz que o cérebro sempre permitiu reações rápidas e automáticas, facilitando a sobrevivência. Mas a verdade é que constitui também um mecanismo sofisticado, capaz de produzir reflexões que, para serem verdadeiramente elaboradas, exigem um processo mental lento. Segundo ele, o pensamento lento é um pensamento pesado, que carrega consigo o peso da memória, o peso da dúvida e o peso da incerteza do raciocínio. "E ainda que sejamos forçados a um dinamismo cada vez mais frenético, resultado dos avanços tecnológicos dos últimos anos, difíceis de acompanhar, isso não muda a forma de funcionamento do cérebro.