Tudo tem o lado bom

Comportamento

Tudo tem o lado bom

Mesmo as situações ruins que acontecem na vida podem trazer lições


Nosso cérebro e nosso corpo são aparelhados para para enfrentar desafios e se adaptar
Nosso cérebro e nosso corpo são aparelhados para para enfrentar desafios e se adaptar - Pexels/Banco de imagens

Não se trata de querer que você veja o mundo com lentes cor-de-rosa o tempo todo, nem que fuja da realidade, mas se você é daqueles que tem mania de ver o lado negativo de todas as coisas, saiba que se decidir encará-las de outras formas e ser feliz apesar delas, dá para passar por tudo com um sorriso no rosto e aproveitar o lado bom. Se você escolher passar de forma equilibrada bem pelas coisas ruins, todo mundo ficará bem. Sua vida é uma só e depende de você tirar o melhor proveito.

A verdade é que todos almejamos o máximo da vida, querendo que seja repleta apenas de momentos felizes. Faz parte da natureza humana querer que tudo esteja sob controle. Isso dá segurança. Mas na vida real nem é sempre assim que acontece e as coisas fogem da programação: ficamos deprimidos, ansiosos, temos nossos momentos de pessimismo e muitas vezes a sensação de fracasso.

"Quando estudamos as emoções negativas do ponto de vista psicológico e evolutivo, descobrimos que cada uma está lá para indicar algo importante: perigo, riscos, incômodos. Uma vez que desenvolvemos essa consciência, conseguimos tirar melhor proveito desses alertas", explica o psiquiatra Daniel Martins de Barros, autor do livro "O Lado Bom do Lado Ruim" (ed. Sextante)

Na maioria das vezes, quando você tentar encontrar soluções, percebe que a resposta não vem e sua vida continua de cabeça para baixo. Você fica desanimado. A grande questão é exatamente tentar manter o controle da situação.

A atitude é considerada louvável pelo escritor David Shenk, autor do livro "O Gênio em Todos Nós" (ed. Zahar). Segundo ele, "o que sabemos é que nosso cérebro e nosso corpo são aparelhados para a plasticidade, são construídos para enfrentar desafios e se adaptar."

Depressão: Ela faz com que as pessoas fiquem presas ao sofrimento e não tenham forças para tomar atitudes que certamente melhorariam suas vidas. A ciência vem se esforçando para demonstrar que podemos tirar proveito, se percebermos seu potencial transformador. Os pesquisadores evolucionistas norte-americanos - em um estudo publicado no periódico Psychological Review, tentam desvendar o que chamam de "o paradoxo da depressão". Guiados pela teoria da seleção natural de Charles Darwin (1809-1882), o psiquiatra J. Anderson Thomson, da University of Virginia, e o psicólogo Paul W. Andrews, da Virginia Commonwealth University, passaram anos tentando entender as doenças mentais. A depressão, segundo eles, seria uma adaptação humana que chegou até nós com tamanha incidência não por acidente, mas porque precisamos dela como indivíduos. Por essa perspectiva, a depressão nada mais é do que uma resposta radical da mente para que encaremos nossos dilemas mais profundos. "Como a dor física, ela serve para sinalizar que existe um problema a ser resolvido", afirma Thomson. Esse mecanismo seria tão poderoso que nos faria parar e olhar para dentro de nós mesmos, ainda que de forma muitas vezes caótica, nem sempre consciente e invariavelmente sofrida;

Ansiedade: Se você faz parte do grupo dos 25% que sofrem com o transtorno, saiba que como toda emoção, ela também tem seu lado positivo e, desde que equilibrada, também pode trazer benefícios para sua vida. Isso porque essa sensação funciona como um "sinal de alerta" do organismo, avisando que precisamos nos proteger emocionalmente, pois sua função primária é nos preparar para lutar ou fugir. Agora, cientistas afirmam que o sentimento pode ser bom - e até um fator decisivo para a sobrevivência. O norte-americano Allan Horwitz, da Universidade Rutgers, defende que não estamos mais ansiosos do que antes, só somos mais diagnosticados com o sintoma. Uma pesquisa do Suny Downstate Medical Center, de Nova Iorque, nos Estados Unidos, diz que os ansiosos têm QI mais alto. O lado bom só aparece se você mantiver a ansiedade na normalidade, como sentir nervosismo em horas tensas. Um estudo da Universidade de Bergen, na Noruega, e do Instituto de Psiquiatria do King´s College, de Londres, na Inglaterra, constatou que pessoas ansiosas têm, naturalmente, altas chances de se curarem de doenças psicológicas como a depressão. Isso porque os ansiosos se preocupam mais consigo mesmos e procuram mais ajuda;

Pessimismo: Há indivíduos que carregam uma nuvenzinha escura sobre suas cabeças e estão sempre predispostos a pensamentos tristes e negativos. Mas não pense que é tão ruim ter os pessimistas por perto. O psicólogo norte-americano Martin Seligman diz que os visionários, os planejadores e os desenvolvedores precisam sonhar com coisas que ainda não existem, explorar fronteiras. "Mas, se todas as pessoas forem otimistas, será um desastre", afirma. O pessimismo também pode ser a chave para o sucesso pessoal e profissional. "Quem pensa negativo sempre sabe que tem uma possibilidade de ser vencido, então trabalha para reduzir ao máximo essa possibilidade", afirma o treinador de basquete Bob Knight, um dos maiores vencedores na história da liga universitária dos Estados Unidos e autor do livro "O Poder Extraordinário do Pensamento Negativo" (ed. Agir). Segundo ele, reconhecer as fraquezas é o primeiro passo para aprender a superá-las. O pessimista cuidadoso, diz Knight, leva vantagem sobre o otimista que acredita que tudo dará certo - e, por isso, deixa de melhorar;

Fracasso: Quando alguma coisa sai do controle como perder o emprego, terminar um relacionamento, não poder comprar a casa dos sonhos ou qualquer outra frustração parecida, não tem muito jeito. Sentimos não só que um plano deu errado, mas que falhamos como pessoa. A mente, porém, evoluiu com uma defesa contra isso: ela ignora o que não quer saber. Uma área do cérebro chamada córtex cingulado anterior é ativada quando percebemos que algo deu errado. Com ele, excitamos mais uma região - o córtex pré-frontral dorsolateral. Ele é o "sensor" da mente, responsável por apagar determinado pensamento. Esse mecanismo duplo permite editar nossa consciência conforme nossa vontade. Assim, conseguimos deixar para trás nossos fracassos. Entretanto, a Universidade de Erlangen-Nuremberg, na Alemanha, realizou uma pesquisa durante dez anos com 40 mil pessoas entre 18 e 96 anos, apontando que os pessimistas vivem mais que os otimistas. "A pesquisa mostrou que os riscos de sofrer algum problema de saúde ou morte prematura são mais altos nos otimistas. O pessimismo em relação ao futuro faz com que as pessoas se cuidem mais em relação à saúde e à segurança", afirmou Frieder Lang, um dos autores.