O tempo voa

Comportamento

O tempo voa

Todos temos a sensação de não conseguir dar conta das demandas em um único dia. Qual a razão?


 Neurociência e psicologia tentam descobrir o que causa a sensação de o tempo passar mais rápido
Neurociência e psicologia tentam descobrir o que causa a sensação de o tempo passar mais rápido - Pixabay/Banco de Imagens

O ano mal começou, você piscou e pronto: já estamos em agosto. Em pouco tempo começarão a surgir os panetones nos supermercados e as árvores de Natal por todos os lados. "Como assim? Não fiz nada esse ano", você vai dizer. Mas o que está acontecendo? Por que o tempo está voando? Por que sentimos que temos cada vez menos tempo?

Não é de hoje que a neurociência e a psicologia tentam descobrir o que causa a sensação de o tempo passar mais rápido do que antes. A conclusão é que você não está errado em achar a vida mais acelerada. Embora o tempo seja o mesmo para todos, cada pessoa percebe sua passagem de forma diferente. E a primeira explicação para isso não traz muito consolo: os dias parecem passar mais rápido porque você está ficando velho. Quanto mais velho você fica, maior a impressão de que o tempo voa.

A explicação vem desde lá de trás, em 1897, quando o filósofo francês Paul Janet (1823-1899) elaborou uma teoria: há uma explicação matemática para sentirmos que o tempo fica mais rápido conforme envelhecemos. Pela lógica descrita por ele, cada ano de nossas vidas representa um pedaço menor do todo. Se um ano representa 20% da nossa existência aos cinco anos de idade, essa proporção cai para 2% quando você chega aos 50 anos. Na divisão proposta por Janet, cada ciclo de 12 meses se torna assustadoramente curto com o avançar das décadas.

A psicóloga britânica Claudia Hammond, autora do livro "Time Warped: Unlocking the Mysteries of Time Perception" (Tempo retorcido: desvendando os mistérios da percepção temporal, sem edição no Brasil), chama esse fenômeno aceleração de "paradoxo das férias". Quando estamos de férias, ou viajando para algum lugar diferente, os dias são tão prazerosos que parecem passar muito rápido - quando chegamos em casa e refletimos sobre o que acabamos de viver, porém aquele tempo parece muito mais longo.

 

O paradoxo das férias ajuda a explicar, de maneira mais exata do que a matemática de Paul Janet, a razão de o tempo se tornar "mais curto" quando envelhecemos. Pela tese de Claudia Hammond, quando jovens, há sempre uma primeira vez para tudo: o primeiro dia de aula, a primeira vez que você dorme fora de casa, a primeira festa sem os pais, o primeiro beijo, o primeiro emprego ou o primeiro filho, por exemplo. Ao envelhecer, os acontecimentos se tornam repetitivos. Os pesquisadores estimam que a fase mais produtiva em termos de novidades ocorra entre os 18 e os 25 anos. Depois disso, o que antes era único e surpreendente se torna parte da rotina e produz memórias.

Viver o presente

A grande pergunta é: como nós podemos transformar este relacionamento com o tempo de forma que nós não o sintamos como um inimigo? Isso reforça a necessidade de colocar em prática um conselho dado por especialistas de todas as áreas: viva o presente. A monja francesa Kankyo Tannier sugere a forma: "Praticando o silêncio e a meditação nós também vamos encontrar algo precioso: o momento presente. Quando a percepção de estar presente se desenvolve, o tempo passa mais devagar e a ansiedade ou estresse da 'falta de tempo' diminuem drasticamente", explica.

Você está envelhecendo: Quanto mais coisas acontecem na vida, maior a sensação de velocidade e da falta de tempo para realizar as tarefas. Um estudo feito por pesquisadores da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, realizou vários testes com voluntários e descobriu que cada pessoa tem sua forma de perceber o tempo, mas que quanto mais velho você fica, maior a tendência em achar que nunca há tempo suficiente para você fazer suas coisas;

Influência da tecnologia: Estamos todos conectados através do mundo virtual. As informações viajam e em segundos atingem o outro lado do planeta. Antes não era assim e vida tinha um outro ritmo. Com smartphones e computadores à disposição, sempre há um e-mail a mais para responder, uma mensagem de WhatsApp para olhar, um lembrete extra para o dia seguinte, e o cotidiano de trabalho passa a invadir até mesmo as horas antes dedicadas ao lazer. Mas o ser humano tem a capacidade de se adaptar às mudanças, precisa apenas tomar certos cuidados, respeitar seus próprios limites para poder viver com saúde e tranquilidade. "Tempo e mente estão interligados. Quando estamos bem, felizes, nem percebemos o tempo passar. Em compensação, quando estamos estressados, cansados, parece que o dia não tem fim. O estresse aparece quando a nossa demanda é maior do que nossa energia. E uma forma para lidarmos como isso é aumentar os níveis de energia. Quando temos bastante energia e entusiasmo, podemos encarar qualquer desafio e nem nos preocupamos com o tempo", sugere Adriana Ambrósio, coordenadora da ONG Arte de Viver.

Mente acelerada: As ações, a correria do dia a dia, distraem nossa atenção desses sentimentos carregados de emoções com as quais não sabemos o que fazer, como lidar. Felizmente, o que aprendemos no silêncio é saber precisamente o que fazer com eles e como recebê-los, deixá-los ir (circular) livremente até desaparecer. "Tudo no mundo, incluindo os sentimentos, aparecem e desaparecem", diz a monja francesa Kankyo Tannier.