‘Eu sou porque nós somos’

COMPORTAMENTO

‘Eu sou porque nós somos’

Psicólogos de um coletivo rio-pretense, que surgiu após os primeiros casos da Covid-19 na cidade, faz um balanço dos quatro meses de atendimento online e gratuito. Grupo atendeu cerca de 230 pessoas


Psicólogo Fausto Martins Geantomasse
Psicólogo Fausto Martins Geantomasse - Arquivo pessoal

Um grupo de psicólogos está de prontidão, desde o início da pandemia do coronavírus, para atender as pessoas que estão confinadas em casa ou precisando de apoio psicológico por causa do medo e preocupação provocados pela Covid-19. Trata-se de uma turma que abriu horários para atendimento de não pacientes que estão precisando de socorro psicológico de forma gratuita. A iniciativa foi dada após perceber a instabilidade emocional das pessoas e o possível aumento de ansiedade e depressão ocasionado pela quarentena.

Trata-se do grupo "Eu sou porque nós somos", que surgiu a partir da demanda emergencial posta pela pandemia. Há quatro meses a turma promove sessões online e gratuitas. Para fazer o atendimento na prática foi criado o site do coletivo www.eusouporquenossomos.com.br. Na página, os interessados podem acessar para saber mais sobre o coletivo, assim como o currículo dos 36 psicólogos parceiros, e escolher com qual profissional pretende ser atendido. Os contatos do grupo são (17) 99191-2983 (WhatsApp) e [email protected] (e-mail).

A reportagem bateu um papo com profissionais que fazem parte da iniciativa, que atendeu cerca de 230 pessoas neste período. Confira abaixo o balanço que eles fazem dos 120 dias de atendimento.

Fotos: Divulgação

A psicóloga Ana Carolina da Silva dos Santos conta que os atendimentos, até agora, foram de extrema importância. Além de fazer o bem e adquirir bagagem clínica, as sessões foram importantes para eliminar alguns pré-conceitos com a psicologia. A psicóloga cuidou da saúde psíquica de sete pessoas por meio do grupo, durante a pandemia. Para ela, a escuta especializada de um profissional traz uma segurança maior ao paciente. "Ele consegue ter um olhar diferente frente as situações em que estamos vivendo e se sente acolhido nos momentos de angústia e preocupações que têm se intensificado junto as incertezas e sofrimento psíquico diante do cenário atual."

Com a experiência adquirida neste período, ela afirma que existem formas para evitar uma onda de transtornos psicológicos como ansiedade e depressão durante e após a pandemia. "É necessário que as pessoas busquem atendimentos e acolhimentos profissionais quando perceber mudanças de comportamento e um acentuar de crises de ansiedade e angústia intensa, pois com o diagnóstico precoce, o tratamento será mais eficaz. Para que os casos não aumentem, entendo que há uma necessidade de a população entender e se permitir a demonstrar suas emoções de forma geral, pois é natural que tenhamos inseguranças neste momento em que estamos vivendo."

Neste momento, ela afirma que as pessoas precisam darem valor as pequenas coisas do dia a dia e busque manter uma rotina mesmo que não haja a necessidade de cumprimento de horários, que busque ter um momento de lazer e de descontração. "Desconecte de muitas informações referentes a Covid-19, que trazem crises de ansiedade e angústia quanto ao futuro e incertezas da vida. Mantenha contato social com familiares e amigos através de aplicativos, mesmo que seja de forma online, para que possam se conectar e se sentir mais próximos, mesmo que de forma online", afirma Ana Carolina.

 

Divulgação

A psicóloga Renata Salles de Moraes atendeu seis pessoas em 56 atendimentos, sendo oito sessões cada uma, uma vez por semana, com exceção de alguns casos, que acabou fazendo alguns atendimentos a mais devido à necessidade. Em contato com os pacientes, ela entendeu que a maioria das pessoas precisavam de apoio e acolhimento. "Eles queriam falar sobre o medo e a insegurança gerados pelo momento atual; falar sobre a indiferença que permeia a sociedade; e da exaltação da ganância em detrimento da vida humana. Esse movimento é extremamente importante, pois tem ajudado a diminuir um pouco a angústia que vem oprimindo o peito das pessoas, e sabemos que as emoções podem deprimir também nosso sistema imunológico, o que acaba nos deixando mais vulneráveis ao contágio. Assim, esses momentos podem ajudar a diminuir os efeitos do medo e da insegurança diante do quadro atual."

Pesquisas mostram que transtornos psicológicos como ansiedade e depressão representarão uma segunda onda de estragos à saúde, após a Covid-19. Neste cenário, Renata afirma que, infelizmente, para mudar esse quadro, hoje, nada pode ser feito, pois ele já está bem instalado. "Mas podemos conseguir melhorar a médio e longo prazo. É de extrema urgência que as pessoas entendam que essa onda já começou e que muitos, ainda, nem imaginam estar dentro dela. A depressão é silenciosa, mas envia alguns sinais e precisamos estar atentos."

Uma dica para acalmar o coração das pessoas, segundo a psicóloga, é se apegar a fé. "Como psicóloga, percebi que conforme as pessoas se aproximavam da sua espiritualidade, se fortaleciam e o tratamento avançava. Acho muito importante, também, chamar a atenção das pessoas para a saúde mental. Não esperem por algum tipo de transtorno para procurarem um psicólogo, pois a psicologia também tem como finalidade auxiliar no caminho da construção de uma vida mais equilibrada e saudável, tanto emocional, mental como fisicamente falando. Precisamos entender que somente quando nos libertarmos de nossas crenças, poderemos seguir mais leves, na direção que escolhermos. Ter saúde mental é essencial para qualquer ser humano."

 

Arquivo pessoal

O psicólogo Fausto Martins Geantomasse afirma que o grupo, até agora, cumpriu com o objetivo proposto. "Temos atendido muitas pessoas de Rio Preto e de várias cidades na região, que não contam com serviço de saúde mental pública." O medo da doença, morte, perda de entes queridos, perda do emprego e perdas de direitos, que produzem e intensificam sofrimentos psíquicos, foram temas abordados. "Eu já atendi dez pessoas e fiz 64 atendimentos, neste tempo."

O especialista explica que os atendimentos têm por norte a psicoterapia breve, focal, psicoeducação, orientações e encaminhamentos. "Além do suporte proporcionado pelos atendimentos, temos realizado orientações e encaminhamentos para a avaliação de outros profissionais e a continuidade do tratamento, pelo SUS, particular ou suplementar dependendo da necessidade e condição sócio-econômica do paciente."

Para Geantomasse, o investimento na prevenção é sempre mais vantajoso, tanto com relação a investimentos de recursos financeiros, quanto ao agravamento de casos que poderiam ter um melhor prognóstico se tratado logo nos primeiros sinais e sintomas. "O momento pede atenção e precauções. É essencial que as pessoas se informem e para tanto usem mídias confiáveis e fiquem atentas as orientações das autoridades de saúde regionais. O distanciamento e isolamento social, só sair de casa por necessidade, usar máscaras, lavar as mãos e usar álcool gel. Atenção também com as questões de saúde, alimentação saudável, atividades físicas, sempre respeitando as normas de segurança e saúde."

O psicólogo afirma que é preciso cuidar também da saúde mental. "Mas a saúde mental não é o mesmo que felicidade, saúde mental tem relação com a capacidade de acolher, de lidar e de elaborar nossos afetos, sejam eles bons ou ruins, felizes ou não.". Geantomasse explica que sentir medo, angústia, preocupação, chorar e ter perturbações no sono não significa necessariamente transtornos mentais, mas reações esperadas numa situação de estresse como nossa atual. "O que diferencia uma reação esperada de estado de adoecimento psíquico e a frequência e a intensidade do sofrimento psíquico e dos sinais e sintomas. A orientação é sempre buscar a ajuda de profissionais da saúde mental, psicólogos) e médicos psiquiatras."

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A psicóloga Paula Duarte realizou em 25 atendimentos até o momento, fornecendo suporte para seis pessoas, sendo que dessas pessoas, quatro já tiveram alta. "É extremamente gratificante o feedback dos pacientes ao finalizarmos as sessões, descrevendo que tiveram melhora e/ou até mesmo remissão dos seus sintomas e queixas. E acredito que ainda possamos ajudar muitas outras pessoas a conviverem melhor com suas emoções e pensamentos diante da pandemia."

Paula afirma que o impacto da pandemia na saúde mental das pessoas já está instalado. "Afinal não podemos negar o medo, ansiedade e a tristeza que em algum momento todos nós vamos sentir, devido tantas mudanças e perdas. Vemos nos atendimentos o número crescente de novos casos e a piora no quadro de quem já apresentava algum transtorno mental. Para ajudar este cenário seria necessário um investimento urgente em serviços de saúde mental por parte dos órgãos públicos. E o que cada um de nós podemos fazer é quebrar tabus e entender que a psicoterapia é um fator primordial para a qualidade de vida."

A especialista dá uma dica importante para quem está ansioso ou preocupado com a pandemia do coronavírus e todos os seus desdobramentos. "Separem o que é possível controlar do que não é. Você pode controlar lavar as mãos e ficar em casa, porém você não consegue controlar as atitudes dos outros e tudo que está acontecendo. A ideia de querer ter controle de tudo só gera ansiedade, tentem diminuir a autocritica e entendam que está tudo bem não produzir o tempo todo. E aprendam olhar para si mesmo e suas emoções com interesse, se autoconhecer. Se pergunte: 'O que me faz bem?' e 'O que desregula o meu humor?'. E o mais importante, busquem ajuda profissional caso percebam sofrimento psíquico intenso e duradouro", afirma a psicóloga Paula.