Na hora da raiva

Saúde emocional

Na hora da raiva

Difícil encontrar quem não se aborreça; permita-se viver essa emoção de maneira mais saudável


Sentir raiva é uma coisa normal; busque o equilíbrio
Sentir raiva é uma coisa normal; busque o equilíbrio - Freepik/Banco de Imagens

Vamos admitir: todos nós já sentimos raiva de alguém ou de alguma coisa que nos desagradou pelo menos uma vez na vida. O que pouca gente sabe realmente é que essa emoção pode ser administrada e muito menos como administrá-la. A raiva desperta em nós sensações difíceis de lidar como agressividade e desejo de vingança, os dois principais sentimentos que vêm com ela no pacote. "As emoções são respostas naturais dos seres humanos e a raiva é uma delas", explica Mara Pita, psicóloga clínica adulto e infantil.

Geralmente a raiva surge a partir de uma situação em que a pessoa se sente privada de algo. "A compreensão e a aceitação dos nossos sentimentos são sempre a chave para o domínio dos mesmos", diz a psicóloga Denise Pará Diniz, coordenadora do Setor de Gerenciamento de Qualidade de Vida da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

"As emoções são evocadas de forma rápida, não planejamos o modo como vamos nos sentir", explica Mara Pita. Quando identificamos que estamos sentindo raiva podemos avaliar o que ativou essa emoção, qual a situação ou pensamento que surgiram para que viesse à tona. Analisar a nossa interpretação diante da situação provocou a reação é uma forma de gerenciar essa emoção. "É comum ao sentir a raiva, a pessoa agir de forma impulsiva sem pensar, o que pode gerar severos danos. Quando nos forçamos a fazer essa pausa, no mesmo instante vamos regulando essa emoção", diz ainda.

A raiva é como o combustível para o automóvel. Ela nos dá energia para seguir em frente. Sem ela, não teríamos motivação para enfrentar os desafios. Quando canalizamos a eletricidade de maneira inteligente, podemos usá-la para melhorar nossa vida, mas se a utilizarmos de forma errada, podemos morrer. Do mesmo modo, devemos aprender a usar a raiva com sabedoria pelo bem da humanidade", escreve o escritor Arun Gandhi no livro "A Virtude da Raiva" (ed. Sextante). Ele é neto do pacifista indiano Mahatma Gandhi (1869-1948).

Não revide

Revidar pode até trazer alívio na hora, mas não resolve o problema. Uma das situações mais comuns é descontar nos outros, principalmente naqueles que não têm nada com o problema. Segundo a neuropsicóloga Thaís Quaranta, sentir raiva é normal. Mas, quando a emoção é constante e fica fora de controle, é um sinal de alerta.

"No dia a dia podemos sentir raiva em diversos momentos, o que é natural. Uma bronca do chefe, uma briga com o namorado, um compromisso frustrado. Entretanto, se a raiva é constante e passa da irritação para uma fúria intensa, é preciso cuidado. Isso porque de forma mais intensa pode levar a pessoa a se envolver em brigas. Além disso, as discussões podem até mesmo acabar com amizades ou afetar o relacionamento familiar, quando há pontos de vistas diferentes sobre um assunto", diz Thaís.

É comum ouvirmos queixas de pessoas que sentiam-se com a razão em determinados momentos e, no entanto, pela dificuldade de responder emocionalmente de uma forma mais adequada reagem de formas disfuncionais (choram diante do chefe, gritam com a mulher, saem de forma abrupta de um ambiente). "A psicoterapia ajuda no gerenciamento dessas emoções e na emissão de novos comportamentos. A pessoa aprende a gerenciar a raiva, a se posicionar, e até mesmo a utilizar a função positiva dessa emoção, que é a expressão da assertividade em vez da agressividade", sugere Mara Pita.

Se por um lado ter explosões de raiva e partir para violência física não são atitudes adequadas, reprimir esse sentimento também pode fazer mal à saúde. "A expressão das emoções é aprendida ao longo da vida. Há fatores que influenciam como cada pessoa lida com seus sentimentos, entre eles a educação, a religião e a cultura", ressalta Thaís Quaranta.

Há pessoas que aprenderam a reprimir a raiva porque foram ensinadas que se trata de um sentimento negativo. Assim, acabam não sabendo expressá-la de uma forma funcional. O que nem todo mundo sabe é que a raiva reprimida pode se transformar em outros sentimentos como culpa, remorso, rejeição, frustração e até mesmo em doenças. A explicação, segundo Thaís, é que a raiva desperta processos fisiológicos no corpo que precisam de uma resposta final. "Quando sentimos raiva, há uma série de efeitos fisiológicos como aumento da frequência cardíaca, da pressão arterial e liberação de adrenalina e de noradrenalina, hormônios que dão energia e disposição. O corpo fica pronto para resolver a situação que gerou a raiva."

O organismo se prepara para o combate e espera voltar ao normal depois disso. Mas, uma pessoa que reprime a raiva, ou seja, que literalmente 'engole o sapo', priva o corpo de voltar à sua normalidade, ou seja, de encerrar esses processos desencadeados pela raiva. Com a constância, é possível que essa pessoa desenvolva o estresse crônico, por exemplo", explica Thaís. O estresse crônico pode levar ao enfraquecimento do sistema imunológico, aumenta o risco cardiovascular, assim como é um fator de risco bem conhecido da depressão e da ansiedade.

Sentir raiva é normal: Se você aprendeu quando criança que só pessoas ruins sentem raiva ou que ela é negativa, livre-se já desta crença. Sentir raiva é normal, permita-se viver essa emoção, mas de uma maneira saudável;

Identifique a origem: A raiva nem sempre está ligada a fatores externos. De onde vem a sua raiva? Do que você sente raiva? Em que situações ela acontece com maior frequência?

Não tome nenhuma atitude: A raiva inibe o controle dos impulsos. Isso significa que no auge da sua irritação, você pode tomar atitudes que não tomaria no seu estado normal. Isso não quer dizer que você deve reprimi-la. Procure se acalmar para então resolver a situação;

Fale sobre a raiva: Falar sempre é uma boa ideia. Quando você estiver mais calmo, converse com alguém e expresse o que você sentiu naquela situação, porque sentiu raiva e pense em alternativas para solucionar a questão. Uma dica: não espere semanas ou meses para fazer isso. Basta estar mais calmo e não no ápice da ira;

Encontre soluções: Você sente raiva de forma recorrente? Está sempre de mal com a vida? Tome uma atitude. A raiva não vai resolver seus problemas, pode até piorá-los. O que vai realmente ajudar é pensar em soluções,
alternativas para as questões que fazem você sentir raiva.

Fonte: Thaís Quaranta, neuropsicóloga