Doses de solidão

Saúde emocional

Doses de solidão

Estado é mais acentuado em três momentos da vida, mas não precisa ser negativo


A solidão não precisa ser necessariamente uma coisa ruim
A solidão não precisa ser necessariamente uma coisa ruim - Pexels/Banco de imagens

A solidão já se transformou numa espécie de epidemia. Um novo estudo identifica os momentos em que este problema é mais acentuado. E nem os mais jovens escapam. Realizada por um grupo de investigadores da Universidade da Califórnia, em San Diego, nos Estados Unidos, a pesquisa constatou que a solidão moderada a severa persiste durante toda a vida adulta, mas é particularmente aguda durante três períodos: no fim dos 20 anos, em meados dos 50 e no final dos 80 anos.

O estudo avaliou 340 pessoas com idades entre 27 e 101 anos. Todos haviam participado de estudos anteriores sobre envelhecimento e saúde mental, mas não tinham doenças físicas ou psicológicas graves. Ainda que uma breve solidão seja comum e esperada, surgindo ocasionalmente durante toda a vida adulta, os pesquisadores verificaram que a gravidade do problema e a idade "têm uma relação complexa", atingindo picos em períodos específicos.

"Sofrer ao sentir-se só é uma questão muito atual. Existem pessoas que precisam estar ocupadas e distraídas o tempo todo. O simples fato de se perceberem sozinhas é angustiante. Existem diferentes tipos de solidão. A solidão de quem está longe da família; a solidão de quem não tem família nem amigos; a solidão de quem não pode mostrar fragilidade, que leva à insegurança, medo, entre outras", explica o psiquiatra Leonard Verea, especializado em medicina psicossomática. Assim, como cada indivíduo tem características próprias, o mesmo ocorre com essa sensação. "Não podemos nos esquecer que cada um tem a sua própria e particular visão de mundo ideal", diz ainda.


As descobertas do estudo, na avaliação de Ellen Lee, pesquisadora na área da saúde mental geriátrica e uma das autoras do trabalho, podem ser definidas como "más" e "boas". A solidão de moderada a severa, segundo ela, parece ser bastante prevalente durante toda a vida adulta. "Esse estado parece estar associado a tudo de mau. Está ligado a problemas de saúde mental, abuso de substâncias lícitas ou ilícitas, comprometimento cognitivo e pior saúde física, incluindo desnutrição, hipertensão e distúrbios do sono", explica na conclusão do trabalho.

Por outro lado, o bom, a pesquisadora observa a forte associação inversa encontrada entre sabedoria e solidão. Ou seja, as pessoas que foram consideradas mais sábias eram menos solitárias. "Isto pode ser devido ao fato de que comportamentos que definem a sabedoria como empatia, compaixão, regulação emocional e autorreflexão, efetivamente combatem ou impedem a solidão grave", disse ainda.

Os cientistas acreditam que será preciso estudar melhor o assunto. "Mas essas descobertas sugerem que precisamos pensar na solidão de forma diferente", afirma Dilip Jeste, outro participante do estudo. "Não se trata apenas de isolamento social. Uma pessoa pode estar sozinha e não se sentir só, enquanto outra pode estar em uma multidão e sentir-se sozinha." Precisamos de encontrar soluções e intervenções que ajudem a conectar as pessoas, que as ajudem a tornarem-se mais sábias. Uma sociedade mais sábia seria uma sociedade mais feliz, mais conectada e menos solitária", explicou ainda.

O psiquiatra Leonard Verea explica ainda que a solidão tem suas particularidades e que não é raro sentir-se só em meio à multidão. "Solidão é algo que diz respeito a nós mesmos, a forma de como encaramos a vida e de como criamos a relação de complementaridade com a vida versus a relação de competitividade. Podemos nos sentir tremendamente sozinhos no meio da multidão, se não nos identificamos com ela; assim como podemos nos sentir muito bem sozinhos, se precisamos daquele momento de reflexão para entrar em equilíbrio conosco e com a vida. É preciso compreender que a solidão é natural e perfeitamente saudável." O ser humano precisa de momentos solitários para fazer uma autorreflexão sobre seus atos, descansar e dar valor aos seus relacionamentos. Neste caso, a solidão é saudável e bem-vinda", diz Verea.