Pelo direito de ser frágil

Saúde emocional

Pelo direito de ser frágil

Permita-se experimentar sua fragilidade, afinal ninguém é feito de ferro


Muitas vezes, a turbulência interna traz, em seguida, a regeneração
Muitas vezes, a turbulência interna traz, em seguida, a regeneração - Pexels/Banco de imagens

"Fique firme", "não chore", "levante a cabeça que está tudo bem". Quantas vezes você não sentiu o mundo desabando e, embora tudo o que precisasse fosse de um colo, encontrou pessoas tentando levantar seu astral? "Somos sempre alimentados com o discurso de que o sucesso depende unicamente de quem o faz e que é preciso a todo momento ter firmeza, coragem, ânimo e dedicação", diz a gestora de carreiras Cláudia Deris.

Será que é assim mesmo? O que a sociedade tem feito com a dor e a solidão que é sentida e com o direito de sermos frágeis, principalmente diante deste caos vivido? O que tem sido feito com o seu sentimento de incapacidade e medo? "Temos entulhado e ignorado tudo o que nos fragiliza e nos limita no lugar mais profundo do nosso ser, afinal temos de ser melhores a todo o momento e almejarmos o sucesso sempre", diz ainda.

A sociedade tem condicionado as pessoas a pensarem positivamente constantemente e a lutar contra as dores e limitações que estão presentes na rotina. "Isso tem gerado um grande faz de conta. Assim, fazemos de conta que é normal e comum viver sem dor, que é possível pensar positivamente sempre, que tudo a nossa volta se transforma conforme a força de nossos pensamentos, que a felicidade plena e constante é totalmente possível para os fortes", diz Claudia.

"Embora a sociedade nos incite a ganhar mais dinheiro e a subir cada vez mais alto na escada do sucesso, ela quase não nos estimula a permanecer conectados com nossa essência, a cuidar de nós mesmos, a nos aproximar dos outros, a recuperar nossa capacidade de admiração e a nos religar àquele lugar onde tudo é possível", escreveu a jornalista e escritora norte-americana Arianna Huffington em seu livro: "A Terceira Medida do Sucesso" (ed. Sextante).

"A realidade é que ninguém gosta de se sentir fraco, de perder o controle da situação, de sentir uma infinidade de sentimentos que causam sensações desagradáveis no corpo. Para evitar tudo isso, procuramos sempre nos manter fortes mesmo que, muitas vezes, por dentro esteja tudo desabando. É a falsa sensação de ser herói ou heroína", explica a psicóloga Danieli Zuanazzi.

A sensação é falsa porque não existe plenitude infinita, não existe o sentir só coisas boas. "Somos humanos e temos nossas fragilidades. E, além disso, as fragilidades são diferentes para cada pessoa. O que pode ser difícil pra mim, você pode tirar de letra, e vice-versa", diz ainda. Quando se deparar com seu ponto fraco, a sugestão é entrar em contato com ele. "Muitas vezes, a turbulência interna traz, em seguida, a regeneração. Você não precisa ser forte o tempo inteiro. Permita-se sentir e procure aprender com esse sentimento. Essa é a verdadeira coragem", diz ainda Danieli.

"É preciso ter cuidado com o nível de crueldade das exigências interiores em prol de uma felicidade totalmente desumanizada. O lixo gerado pelas limitações que todos adoram esconder por trás de um post com efeitos de imagem, por trás de frases inspiradoras que não praticamos, tem apodrecido a alma e confeccionado vazios profundos", diz Claudia.