Chora que passa

Saúde emocional

Chora que passa

Lágrimas facilitam enfrentamento e recuperação durante períodos de estresse


Quanto menos você segurar suas lágrimas, melhor você se sentirá
Quanto menos você segurar suas lágrimas, melhor você se sentirá - Pixabay/Banco de Imagens

Em algum momento da vida certamente você já tentou segurar as lágrimas e percebeu que esta pode ser uma tarefa mais difícil do que simplesmente deixá-las cair. Os motivos que levam ao choro são os mais variados: choramos de tristeza, de emoção, de raiva, de saudade, de frustração e até mesmo de felicidade. Independentemente do motivo, chorar faz muito bem à saúde: limpa os olhos, lava a alma e alivia o coração, diminuindo até mesmo os riscos de doenças cardiovasculares como o enfarte.

Acredite, chorar é ainda uma das formas de se evitar grandes e irreversíveis consequências para a vida. É a melhor válvula de escape para qualquer emoção intensa e que nos sobrecarregue. Tanto é que, quando começamos a chorar, as emoções são libertadas como se estivessem fechadas numa panela de pressão. Estudos mostram que 88% das pessoas se sentem melhor depois de ter se desafogado com um choro intenso. Os homens o fazem, embora apenas sete vezes ao ano, contra 47 vezes das mulheres.

Do ponto de vista fisiológico, as lágrimas são praticamente as mesmas que você derrama quando está cortando uma cebola e fica com os olhos irritados. Elas são gotinhas produzidas pela glândula lacrimal. Embora possa haver um estigma em torno do choro, um novo estudo descobriu que chorar é realmente muito bom para sua saúde. Poucas coisas trazem tanto conforto quanto derrubar algumas lágrimas. O trabalho publicado na revista Emotion concluiu que o choro facilita as habilidades de enfrentamento e recuperação durante períodos de estresse. Isso significa que quanto menos você segurar suas lágrimas, melhor você se sentirá física e emocionalmente.

Os voluntários do estudo foram orientados a assistir vídeos tristes para provocar emoção ou vídeos neutros por 17 minutos, antes de passarem por um teste de estresse. Aqueles expostos aos vídeos tristes, projetados para estimular as lágrimas, mantiveram taxas de respiração estáveis durante o teste de estresse. Os batimentos cardíacos desaceleraram imediatamente antes de chorar e nunca subiram acima dos níveis normais durante a tarefa estressante. Por outro lado, os que assistiram os vídeos neutros experimentaram aumento das frequências respiratória e cardíaca durante o teste de estresse.

"Estes resultados sugerem que o choro pode ajudar na manutenção geral da homeostase biológica (tendência em manter o ambiente interno estável e constante), talvez conscientemente através do autorrelaxamento pela respiração intencional e, inconscientemente, através da regulação da frequência cardíaca", relatou o estudo.

A pesquisadora Judith Orloff, uma das autoras do estudo, explicou em seu site que existem três tipos diferentes de lágrimas: reflexas, contínuas e emocionais. Lágrimas reflexas limpam os irritantes dos seus olhos, as contínuas mantêm os olhos lubrificados, enquanto as emocionais ajudam o corpo a se livrar dos hormônios do estresse e a promover a cura. Os benefícios trazidos pelas lágrimas emocionais são os motivos pelos quais ela é uma grande defensora de quebrar o estigma em torno do choro.

"O novo paradigma estabelecido do que constitui um homem e uma mulher poderosos é alguém que tem a força e a autoconsciência para chorar", disse ela. Tente deixar de lado as concepções antiquadas e falsas sobre o choro. "É bom chorar. É saudável chorar. Isso ajuda a limpar emocionalmente a tristeza e o estresse", complementa.

 

Outro estudo feito na Universidade da Pensilvânia Penn School of Medicine, nos Estados Unidos, mostrou que as lágrimas ajudam o corpo a se livrar de toxinas e hormônios que contribuem para níveis elevados de estresse. Por sua vez, isso ajuda a diminuir sua pressão arterial. Da próxima vez que começar a chorar, pode-se dizer às pessoas que está limpando sua fisiologia. Pode ser importante encontrar maneiras razoáveis de liberar periodicamente suas emoções. Caso contrário, você pode acabar acumulando tudo e causar intensos prejuízos ao seu organismo.

Alívio das tensões

A escritora Silvana Tavano escreveu em seu livro "Buááá!!!" (ed. Callis) que, apesar do nó na garganta e de o coração se contorcer, as lágrimas lavam a alma e aliviam as tensões. "Muitas vezes, o choro é entendido como fraqueza, mas não é. Só quem tem força interior, consegue expressar sua emoção autêntica de tristeza através dele. Há pessoas que choram quando estão com raiva ou sentindo alegria", diz. Nesse caso, o choro é a explosão de uma intensa emoção.

Seja qual for a razão das suas lágrimas, chorar é uma poderosa linguagem não-verbal. No livro "Adult Crying" (Quando adultos choram), Ad Vingerhoets, professor da Tilburg University, na Holanda, traz uma explicação: "Poucas outras formas de comunicação dizem tanto em tão pouco tempo."

Mas há diferença entre as lágrimas com função lubrificante, as que surgem como reflexo de um cílio que cai no olho e as lágrimas emocionais? A resposta é sim. O que mais intriga os cientistas em nossos dias é justamente esse terceiro tipo, exclusivo dos seres humanos: as lágrimas que são vertidas quando choramos para expressar algum sentimento. Ao contrário das basais e das reflexas, que têm um propósito bem definido, tais lágrimas não trazem nenhum benefício especial para a córnea ou para a superfície ocular.

"Por que, então, o olho, motivado por uma emoção qualquer, produz uma secreção?", pergunta o oftalmologista espanhol Juan Murube Del Castillo, da Universidade de Alcalá, em Madri, na Espanha. A hipótese mais plausível, segundo ele, é que o choro tenha surgido antes da linguagem falada, como uma expressão mímica para comunicar dor. Tudo começa na parte do cérebro onde a tristeza é registrada. O sistema endócrino é então acionado para que libere hormônios para a área ocular que então causa a formação de lágrimas.

Quando os cientistas analisaram o conteúdo dessas lágrimas, eles descobriram que elas eram bem diferentes. As lágrimas reflexivas são compostas geralmente por 98% de água, enquanto que vários produtos químicos estão presentes nas lágrimas emocionais. Em primeiro lugar aparece uma proteína chamada de prolactina, bem conhecida por controlar a produção de leite materno. Hormônios adrenocorticotróficos são também comuns e indicam um alto nível de estresse. A outra substância química encontrada nas lágrimas emocionais é a encefalina-leucina, uma endorfina que reduz a dor e trabalha para melhorar o humor. É claro que muitos cientistas apontam que a pesquisa nessa área ainda é bastante limitada e que outros estudos devem ser realizados antes de que se chegue à alguma conclusão.