Não é tão ruim assim

Saúde emocional

Não é tão ruim assim

Você pode ter mais benefícios do que pensa com os momentos de tédio


Pesquisas sugerem que podemos sofrer prejuízos quando não nos permitimos ficar entediados
Pesquisas sugerem que podemos sofrer prejuízos quando não nos permitimos ficar entediados - Pexels/Banco de imagens

Em momentos de distanciamento social e muitas vezes diante da falta de coisas para fazer, ele costuma aparecer, assombrando a todos. Esse é o tédio, momento que quase ninguém costuma associar ao prazer. Todo mundo foge dele. E não é surpresa tal desconforto com o tédio.

A sociedade valoriza uma vida ocupada. Estar sempre ocupado se transformou em símbolo de status. Ao mesmo tempo, ócio e tédio costumam ser associados a uma falta de propósito.

O psicanalista Martin Wangh diz que o tédio é uma "inibição de fantasias" e vários estudos concluíram que pessoas com "tendências ao tédio" carecem de estímulos externos e se frustram facilmente diante de situações mais desafiadoras.

O problema é que talvez estejamos olhando para o tédio de maneira errada. Pesquisas sugerem que podemos estar sofrendo prejuízos quando não nos permitimos ficar entediados de vez em quando. "O tédio é o sentimento que nos impele a trilhar sempre os mesmos caminhos e nos compele a procurar outros objetivos de vida e a explorar novos territórios e ideias", escreveu a pesquisadora Heather Lench, da Texas A&M University, nos Estados Unidos.

Canalize sua ociosidade

Algumas das melhores ideias surgem em momentos de maior ociosidade mental. Há até quem especule que momentos mais criativos ocorrem quando estamos mais entediados. Em um estudo da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, os psicólogos Karen Gasper e Brianna Middlewood constataram em testes que participantes entediados tiveram melhor desempenho que os mais relaxados ou entusiasmados.

Alguns experimentos conduzidos por cientistas da Universidade de Central Lancashire, no Reino Unido, mostram que os voluntários que receberam uma tarefa mais entediante antes foram mais inventivos na outra. A conclusão é que um estado de tédio encoraja a exploração da criatividade.

"Se não encontramos estímulos externos, procuramos internamente, visitamos locais diferentes da nossa mente", diz a psicóloga Sandi Mann. Somos muito iemdiatistas. John Eastwood, da York University, no Canadá, defende que incentivar as pessoas a perceber que suas vidas têm um propósito no mundo as tornam menos entendiadas e evita a busca de distrações fáceis para a fuga.

Quando sonhamos acordados, acionamos nosso subconsciente, que não é restringido por uma necessidade de ordenar as coisas, explica Sandi Mann, uma das psicólogas de Lancaster. Ela explica que a chave para pensarmos de forma mais criativa é separarmos tempo para deixar a mente "passear" - embora muitos de nós tenhamos alguns momentos de ócio durante o dia, é bem provável que os preenchamos checando mídias sociais e e-mails. Ela sugere a criação de "sessões de sonhar acordado" ou praticar atividade como nadar, por exemplo, em que é possível para a mente divagar sem distrações.

Os membros da Academy of Management, a maior organização global dedicada à investigação na área da gestão e organização em estudo sobre o tema também confirmaram: sentir tédio pode levar as pessoas a serem mais criativas. Diferentemente de outros trabalhos que indicavam que o tédio perpetua emoções negativas, como raiva e frustração, os participantes deste estudo não sentiram um aumento significativo de emoções negativas como resultado de estarem entediados.