SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | SEXTA-FEIRA, 24 DE SETEMBRO DE 2021
Saúde emocional

A virtude que nos salva

As coisas saíram um pouco do controle? Hora de exercitar a paciência

Gisele BortoletoPublicado em 13/06/2020 às 20:48Atualizado há 07/06/2021 às 01:21

É natural em um mundo que tem passado por tantas transformações, que as coisas não aconteçam exatamente da forma como queremos. Com a mudança na vida das pessoas da noite para o dia, planos e projetos tiveram de ser abandonados. É genuíno que a ansiedade tente tomar a frente. Nesta hora ter paciência parece um pouco complicado.

A paciência, dizem os estudiosos, é a arte de sofrer sem perder a compostura, mas nada tem a ver com a aceitação. Pelo contrário, ela é uma virtude que nos salva quando nada mais tem sentido. É uma espécie de força vital que nos impele a seguir adiante mesmo quando tudo parece conspirar contra nós. Difícil mesmo é encontrar alguém que consiga terminar o dia sem ter demonstrado, pelo menos uma vez, falta de paciência ou irritação diante de qualquer situação que contrarie nossa vontade.

Quem nunca se irritou à espera de um telefonema? Em uma fila do caixa eletrônico ou para entrar no supermercado quando está atrasado e ter tanta coisa pra resolver ao mesmo tempo? As reações podem ser as mais diversas: alguns têm ataques de fúria em público, outros se enfurecem, mas esbravejam sozinhos. Basta olhar ao seu redor, não importa o lugar onde esteja, para constatar que as pessoas estão sofrendo de impaciência. Não é à toa que, de todas as virtudes, a paciência é sem dúvidas a mais difícil de exercitar. Podemos até tentar nos controlar na frente de estranhos, mas geralmente as demonstrações acontecem em cima das pessoas que nos amam- a família e amigos. Isso se normaliza porque achamos que eles vão aguentar para sempre nosso desaforo.

Controle emocional equilibrado

A paciência antes de mais nada é a virtude de manter um controle emocional equilibrado, sem perder a calma, ao longo do tempo. Não se trata de ter o autocontrole de um monge budista. Esse estado consiste basicamente de tolerância a erros ou fatos indesejados. É a capacidade de suportar incômodos e dificuldades de toda ordem. É a habilidade de persistir em uma atividade difícil, tendo ação tranquila e acreditando que irá conseguir o que quer; de ser perseverante, de esperar o momento certo para algumas atitudes, de aguardar em paz a compreensão que ainda não se tenha obtido, capacidade de ouvir alguém, com calma, com atenção, sem ter pressa, capacidade de se libertar da ansiedade. A tolerância e a paciência são fontes de apoio seguro nos quais podemos confiar. Sem ela, garantem os conhecedores da alma humana, não conseguimos enxergar os outros, o entorno e nós mesmos com clareza e profundidade, nem esperamos o tempo preciso de colher os frutos de nossas investidas.

Tudo bem que a impaciência algumas vezes nos tira de uma zona de conforto e a inquietude que ela gera pode ser estimulante na busca de novos desafios. No entanto, como tudo na vida, ela precisa ser bem dosada, pois, descontrolada pode prejudicar a nossa saúde e bem-estar, assim como atrapalhar o nosso convívio.

A sensação de que falta espaço na agenda para o lazer, os amigos, a família e para as nossas tarefas, cedo ou tarde, vira um veneno para a alma. Segundo a consultora norte-americana M.J. Ryan, autora do livro "O Poder da Paciência" (ed. Sextante), essa opressão pode nos tornar pessoas grosseiras e mal-humoradas, além de comprometer o nosso desempenho. "O medo de não termos tempo para nada diminui nossa eficiência e capacidade de atuação. Quanto mais conseguimos nos manter tranquilos ao estarmos sob pressão, mais capacidade temos de agir porque usamos a parte racional da mente para nos ajudar", escreveu.

Aceite o que não pode mudar

"Perdemos a paciência porque não aceitamos os fatos como são. Exigimos, inconscientemente, que tudo seja como planejamos. Isso é uma ilusão", diz o psicólogo Milton Paulo de Lacerda, autor do livro "Paciência: Ter ou Não Ter?" (ed. Vozes). O imediatismo, segundo ele, é próprio da personalidade imatura, incapaz de identificar as verdadeiras dimensões da realidade.

É claro que muitos de nós enfrentamos desafios em relação à administração do tempo na atualidade. Na maioria das vezes nos perdemos no meio de intermináveis e-mails, telefonas, mensagens no Facebook, WhatsApp e, quando vemos, o tempo escorreu pelo vão dos dedos e reclamamos furiosamente.

Em certo sentido, a paciência é a última das virtudes. Não porque seja menos importante que as outras, mas porque é ela quem nos salva quando todas as outras parecem ter nos abandonado (a polidez, a prudência, a temperança, a generosidade, a compaixão, a misericórdia, a gratidão, a humildade, a simplicidade, a tolerância, a gentileza ou a boa-fé, por exemplo). A paciência é uma espécie de ato de respirar fundo à beira do abismo, a filosófica tomada de fôlego.

A palavra paciência vem do latim patere, que significa "suportar" ou "sofrer". No livro "Pequeno Tratado das Grandes Virtudes", (ed. Martins Fontes), o francês André Comte-Sponville exemplifica: "O que é uma virtude? É uma força que age, ou que pode agir." O filósofo Santo Agostinho no "Ensaio Sobre a Paciência", no século cinco escreveu: "A paciência é a virtude pela qual o ser humano tolera a desgraça, pode renunciar ao que é bom junto ao que é ruim."

"A calma e a paciência são fatores principais para o crescimento e sucesso do ser humano", diz o neuropsicanalista Fernando Weikamp. Sem esses ingredientes, não é possível conviver com si mesmo ou com os outros, por isso temos assistido a tantas barbáries. Mas de onde vem tanta impaciência? "Dos nossos conceitos familiares, assistindo desde a infância as brigas e a impaciência dos pais e da família em estado emocional altíssimo. Vamos gravando tudo isso no nosso inconsciente e chega um momento em que consideramos normal a falta de paciência", complementa. Por isto, os consultórios estão cheios de pessoas à procura de medicamentos muitas vezes desnecessários.

A saída? "Entender o motivo do seu estresse e o que incomoda e a partir daí, tirar esses fatores do seu caminho e viver a sua vida, ao invés de viver uma realidade que o mundo mercantilista tenta nos impor, dizendo como devemos pensar e agir", recomenda o Weikamp.

As pessoas que superam as dificuldades e transformam suas vidas diante de qualquer acontecimento, tomam três tipos de decisões poderosas todos os dias. Neste sentido, é fundamental diante de qualquer acontecimento focar nossa mente consciente nas coisas que desejamos e não nas coisas que tememos ou precisamos. É necessário definir com clareza nosso propósito de vida, o nosso porquê.

 
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