Ex-alunas do Ibilce de Rio Preto têm presença de destaque na pesquisa científica

PREMIAÇÃO

Ex-alunas do Ibilce de Rio Preto têm presença de destaque na pesquisa científica

Mulheres vencem programa nacional por impulsionarem o desenvolvimento da ciência no Brasil. Pesquisadoras ganharam uma bolsa para prosseguirem os estudos


O projeto premiado de Rita, que é olimpiense, foi 'Galáxias Starburst como fontes de raios cósmicos de altas energias: modelo e perspectivas'
O projeto premiado de Rita, que é olimpiense, foi 'Galáxias Starburst como fontes de raios cósmicos de altas energias: modelo e perspectivas' - Arquivo pessoal

Quantos nomes de cientistas mulheres você conhece? Provavelmente, o número é bem menor do que o de homens. Para mudar esta realidade, surgiu o programa "Para Mulheres na Ciência", promovido pela L'Oréal Brasil, em parceria com a Unesco no Brasil e a Academia Brasileira de Ciências (ABC), que acredita e incentiva que o mundo precisa de ciência e a ciência precisa de mulheres. Segundo a iniciativa, a ciência é a chave para solucionar os enormes desafios do mundo atual e, para conseguir mudá-lo para melhor, precisa de mulheres.

O programa, que está completando 15 anos no Brasil e 22 anos fora do país, tem como motivação a transformação do ambiente científico, favorecendo a equidade de gêneros no cenário brasileiro e global. Todo ano, na edição nacional, são escolhidas sete jovens pesquisadoras de diversas áreas de atuação que são contempladas com uma bolsa-auxílio para ser investida em sua pesquisa.

O prêmio já reconheceu mais de 100 cientistas promissoras e distribuiu mais de R$ 4,5 milhões em bolsas. As pesquisadoras receberam impulso para darem prosseguimento em seus estudos e incrementarem o desenvolvimento da ciência no Brasil. A partir desse ano, o prêmio ainda traz uma novidade: a Unesco dará um treinamento para cada uma das sete cientistas, com duração de dois dias, incluindo webinars sobre gênero, carreira, media training e outros assuntos relacionados às mulheres na ciência.

Das sete premiadas na edição 2020 do programa "Para Mulheres na Ciência", duas cientistas estudaram no Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (Ibilce), da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Rio Preto. Trata-se de Rita de Cássia dos Anjos, que estudou Física Biológica, e Daniela Ramos Truzzi, que cursou Química Ambiental.

Rita de Cássia faturou o prêmio na categoria Ciências Físicas com projeto "Galáxias Starburst como fontes de raios cósmicos de altas energias: modelo e perspectivas". Natural de Olímpia, a pesquisadora de 36 anos foi reconhecida por seu trabalho com astrofísica de partículas de altas energias, ou física de raios cósmicos. "Raios cósmicos são partículas com altíssimas energias detectadas na Terra. Nosso objetivo é saber a origem destas partículas e quais os processos astrofísicos no Universo que poderiam acelerá-las até altíssimas velocidades."

A pesquisadora explica que seu trabalho teve reconhecimento porque tenta entender os processos altamente energéticos que ocorrem no Universo e como eles ocorrem grandes enigmas da astrofísica atual, ou seja, são perguntas ainda em aberto. "O estudo da física de raios cósmicos permite que entendamos como diferentes estruturas, a exemplos de galáxias e buracos negros se relacionam no Universo e qual o impacto destas estruturas em nossa galáxia."

No mapa das mulheres na tecnologia no Brasil, a olimpiense afirma que vencer o programa é algo muito importante em sua vida e carreira. "Ter vencido o prêmio este ano significa que estou no caminho certo. Que reconheceram que a pesquisa que faço é de qualidade, mesmo estando em um campus da Universidade Federal do Paraná (UFPR), no interior do Estado do Paraná. Para mim fica claro que mesmo sendo minoria no ambiente acadêmico é possível fazer ciência e incentivar nossos alunos para seguirem a carreira acadêmica."

A cada ano, os membros do júri do programa selecionam trabalhos com potencial de encontrar soluções para importantes questões ambientais, econômicas e de saúde, como é o caso do trabalho da química Daniela Ramos Truzzi, que busca compreender o funcionamento do óxido nítrico, gás relacionado a diversos processos, como a contração dos vasos sanguíneos, a defesa imunológica e a cicatrização de tecidos. Ela concorreu com o título "Dinitrosilos complexos de ferro (DNICs) e sua relevância em processos promovidos por óxido nítrico em meio biológico".

Rio-pretense, Daniela tem 35 anos e hoje mora em São Paulo, onde trabalha no Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ/USP). A química explica que seu trabalho de pesquisa visa compreender o funcionamento do óxido nítrico no organismo. "Isso porque, o óxido nítrico é uma molécula que produzimos naturalmente e que participa de uma série de processos biológicos importantes, como vasodilatação, neurotransmissão, resposta imunológica e ação oxidante.

A pesquisadora rio-pretense explica que, especificamente, procura entender as funções biológicas de um dos metabólitos do óxido nítrico mais abundantes em células: os dinitrosilos do complexo de ferro. "Esse conhecimento pode nos dar suporte para o desenvolvimento de novos fármacos. Acredito que o diferencial da minha pesquisa seja o fato dela ser interdisciplinar e ter como alicerce a ciência básica. Trabalhamos com química inorgânica, produzindo avanços em ciência fundamental, mas voltados para as condições celulares. Isso faz com que esse conhecimento possa, no futuro, servir de base para avanços na área da saúde."

Para Daniela, a premiação representa o reconhecimento da qualidade da sua pesquisa. "Ser premiada, dentre tantas pesquisadoras de qualidade, é uma grande honra e incentivo, principalmente porque a pesquisa científica nem sempre tem o apoio e os recursos financeiros e tecnológicos de que necessita. Além disso, o prêmio traz visibilidade, não apenas no meio científico, aumentando a projeção do meu trabalho, mas também para a sociedade, para mostrar que as mulheres contribuem efetivamente para a ciência."

O número de mulheres na ciência vem crescendo ao longo dos anos, apesar dos desafios enfrentado. Rita de Cássia afirma que houveram alguns avanços, no entanto, a desigualdade é grande. "Precisamos continuar deixando nossas meninas buscarem carreiras científicas e quando isto acontecer, incentivá-las durante o caminho. Precisamos ter incentivos às pesquisadoras que retornam da licença maternidade para continuarem suas pesquisas, enfim, precisamos reconhecer que o ambiente com diversidade é rico e gera mais resultados."

Apesar da quantidade de mulheres na ciência ainda ser considerada desigual, Rita de Cássia dá uma dica para a jovem que quer seguir carreira científica. "Minha dica é seguir em frente com muito entusiasmo porque a mulher na ciência faz toda diferença e a ciência em nossas vidas é fonte de grandes realizações", afirma a pesquisadora que hoje mora na cidade de Palotina, no Paraná.

A química Daniela Ramos Truzzi afirma que o número de mulheres na ciência vem aumentando ao longo dos anos devido ao maior acesso à informação. "Apesar disso, sabemos que a escolha da profissão é muito relacionada com os exemplos a que somos expostos na nossa infância e juventude. E esse é um dos objetivos do prêmio: mostrar para as meninas que temos mulheres cientistas no Brasil e que elas podem se tornar uma delas." Para ela, a jovem que quer seguir carreira científica deve ser persistente e perseverante. "Ela tem que acreditar em seu potencial. A carreira de cientista é fascinante e o nosso país precisa muito da contribuição de mais mulheres."

Daniela Ramos Truzzi fez o ensino fundamental (E. E. Daud Jorge Simão) e médio (E. E. Amira Homsi Chalella) em escolas públicas de Rio Preto. Para ingressar na universidade, fez o cursinho popular da Umes. Ela graduou em Química Ambiental no Ibilce/Unesp, fez mestrado e doutorado no Instituto de Química de São Carlos (IQSC-USP), na área de Química Inorgânica, em que trabalhava com o desenvolvimento de complexos doadores de óxido nítrico. Também fez pós-doutoramento no Instituto de Química (IQ-USP), em São Paulo, e na University of California, em Santa Barbara, nos Estados Unidos. Atualmente, ela é docente do Instituto de Química da USP.

Rita de Cássia dos Anjos graduou-se no curso do Ibilce em 2007, defendendo seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) sob a orientação do professor Elso Drigo Filho, do Departamento de Física do Instituto. Na sequência, fez mestrado e doutorado no Instituto de Física de São Carlos, na Universidade de São Paulo (USP), e pós-doutorado em Harvard. Hoje, ela é professora na Universidade Federal do Paraná (UFPR).