Pedro Acquaroni Neto: um mestre com alma e dons de artista
Pedro Acquaroni Neto é pai de Thiago, 43 anos, e Tatiana, 39. E tem quatro netos: Beatriz, 19, Pietro, 9, Lorenzo, 5 e Antonella, 1 aninho
Pedro Acquaroni Neto é pai de Thiago, 43 anos, e Tatiana, 39. E tem quatro netos: Beatriz, 19, Pietro, 9, Lorenzo, 5 e Antonella, 1 aninho - Guilherme Baffi

Café com pão

Café com pão

Café com pão

Virge Maria que foi isto maquinista?

Agora sim

Café com pão

Agora sim

Voa, fumaça

Corre, cerca

Ai seu foguista

Bota fogo

Na fornalha

Que eu preciso

Muita força

Muita força

Muita força

(...)

Só um fragmento do poema e a classe, invariavelmente, vai ao delírio quando ele declama "Trem de Ferro", de Manuel Bandeira. Um professor declamador. Um mestre com alma e dons de artista. Que arrebata o coração dos alunos. Que provoca a sensibilidade e desperta a sede dos jovens para o oásis da Literatura e para as bênçãos da Redação. Um professor chamado Pedro Acquaroni Neto. O popular "Pedrinho, do London". Pelo relicário sagrado de sua voz forte, emoldurada para os encantos da poesia, já passaram 60 mil alunos em 48 anos de profissão. Para nossa sorte, mesmo nascido em Catanduva e de família da vizinha Itajobi, ele escolheu Rio Preto para servir nessa vida. Aos 68 anos de idade, Pedrinho comanda as três unidades (curso, colégio e pré-vestibular) do London, escola que ele fundou há 43 anos. Autor de sete livros, tem carreira literária reconhecida em importantes editoras internacionais. E tanto Pedrinho mergulhou na Literatura que foi fisgado pelos fascínios da mitologia. Além de livros publicados sobre o tema, quando lhe é possível, ministra palestras instigantes e deliciosas sobre as muitas e ricas lições dos deuses para a humanidade. Casado com Rosângela há 44 anos, o casal tem dois filhos: Thiago, 43 anos, Tatiana, 39. E quatro netos: Beatriz, 19, Pietro, 9, Lorenzo, 5 e Antonella, 1 aninho. A seguir, Pedrinho do London é pura poesia e reflexão ao responder sobre a vida e o Ensino em 2020. Antes, porém, entenda um pouco da urgência e da intensidade dos seus sentidos com apenas uma palinha do extenso e grave poema "Ode triunfal", de Álvaro de Campos, heterônimo do poeta Fernando Pessoa. Dificílimo, é dos que ele mais gosta de declamar.

"Ode triunfal"

"À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica

Tenho febre e escrevo.

Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,

Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!

Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!

Em fúria fora e dentro de mim,

Por todos os meus nervos dissecados fora,

Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!

Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,

De vos ouvir demasiadamente de perto,

E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso

De expressão de todas as minhas sensações,

Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

(...)"

V&A - As lendas da mitologia greco-romana têm cabedal para explicar esse primeiro semestre de 2020? Houve uma revolta de Deuses e Deusas com o caminhar da humanidade?

Pedro Acquaroni Neto - A mitologia é uma sabedoria milenar, uma tentativa de entender a vida. Os Deuses da mitologia têm todas as nossas qualidades e todos nossos defeitos, são inclusive vingativos. No momento, parece que os Deuses estão alertando a humanidade por todo desarranjo que provocamos na natureza, por todo comportamento inadequado, por cultivar valores fúteis, por esquecer o que é a essência da vida. Afinal vivemos para quê? É um momento angustiante, mas também de profunda reflexão.

V&A - A pandemia do novo coronavírus fez andar a toque de caixa o ensino à distância que só engatinhava. Após mais de 40 anos em sala de aula, você acredita que será preciso navegar também nos mares da Internet? Como você avalia esse modelo para o Brasil?

Pedro Acquaroni Neto - A educação tem procurado caminhos tecnológicos. A pandemia acelerou esse processo. O nosso problema é a desigualdade social e econômica. Alunos de boas escolas estão tendo um ensino de qualidade, enquanto a maioria dos alunos não está tendo um ensino adequado. A tecnologia de forma geral aumentou a desigualdade e neste momento, isso é visível no trabalho online das escolas. É triste ver que a educação privada funciona bem inclusive na pandemia, enquanto a educação pública de forma geral deixa muito a desejar, mesmo com o empenho e dedicação dos professores. A sociedade precisa valorizar a educação e o professor. O emprego da tecnologia na educação é irreversível.

V&A - Qual o aprendizado fica para alunos e professores das emergências, incertezas e adaptações dos últimos meses?

Pedro Acquaroni Neto - O aprendizado que fica é que o ser humano é capaz de se adaptar e de superar adversidades. Usando a mitologia, há um Hércules e uma Fênix dentro de cada indivíduo, é possível sempre renascer das próprias cinzas. Como disse Machado de Assis, do estrume nasce uma Flor, de algo desvantajoso, podemos extrair aprendizagens e evoluir. A Educação vai acrescentar a tecnologia às aulas presenciais. Haverá um avanço.

V&A - O que a Educação representa em sua vida?

Pedro Acquaroni Neto - A educação é um pilar central de minha vida. Deu-me conhecimento, convivência com milhares de seres humanos nestes 48 anos em sala de aula, sustenta a mim e a minha família há décadas. Tenho prazer de estar em sala de aula e sou muito feliz com o que faço. Tive a felicidade de ter essa profissão maravilhosa. Conheci pessoas incríveis nessa trajetória.

V&A - Ex-alunos, alunos, especialistas em Educação e Literatura e leitores admiram o Pedrinho do London. Apresente-nos o Pedrinho pai.

Pedro Acquaroni Neto - O profissional e o pessoal são coisas diferentes. O profissional é quase um personagem. O pessoal é mais natural. Ser pai é prazeroso. Não imagino minha vida sem os filhos e netos. Dentro de minhas limitações, sempre me preocupei em ser um bom pai, ensinar aos filhos um caminho honesto e ético, isso acho que consegui. Isso não quer dizer que tudo seja perfeito, sempre há conflitos e divergências. Família é uma construção constante. Tenho certeza de que passei para eles o valor da responsabilidade. Agora a construção é deles.

V&A - Se pudesse oferecer um poema a todos os brasileiros hoje, qual seria?

Pedro Acquaroni Neto - Inscrição, de Cecília Meireles

"Inscrição"

Sou entre flor e nuvem,

estrela e mar

Por que havendo de ser unicamente humanos,

limitados em chorar?

Não encontro caminhos

fáceis de andar

Meu rosto vário desorienta as firmes pedras

que não sabem de água e de ar

E por isso levito.

É bom deixar

um pouco de ternura e encanto indiferente

de herança, em cada lugar.

Rastro de flor e estrela,

nuvem e mar.

Meu destino é mais longe e meu passo mais rápido:

a sombra é que vai devagar.