SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | SEXTA-FEIRA, 24 DE SETEMBRO DE 2021
VIDA E ESTILO

Criando filhos resilientes

Profissionais da educação e da psicologia dão dicas para os pais que desejam criar filhos com cérebros mais flexíveis e, portanto, mais resilientes

Harlen FelixPublicado em 10/07/2021 às 22:30Atualizado há 11/07/2021 às 19:37
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Termo usado para definir a capacidade do ser humano de superação diante das adversidades da vida, a resiliência é algo que se aprende desde cedo, uma tarefa que cabe, sobretudo, aos pais. Em artigo publicado recentemente no site da emissora norte-americana CNBC, Lisa Feldman Barret, pesquisadora da Universidade de Harvard, dá dicas para criar filhos com cérebros mais flexíveis e, portanto, mais resilientes. Entre elas, a pesquisadora destaca o diálogo permanente com as crianças, o convívio com a diversidade e o estímulo à autonomia.

A reportagem ouviu profissionais da psicologia e educação para ampliar a reflexão em torno do tema, de modo a identificar atitudes que contribuem no desenvolvimento integral dos pequenos, garantindo maturidade emocional na vida adulta. "Pessoas resilientes são mais preparadas para ouvir um 'não' e encarar essas negativas como incentivo para buscar um 'sim'. Ou seja, resiliência é a capacidade de enfrentar os problemas que a vida nos apresentar, fazendo dessas situações oportunidades de amadurecimento e aprendizagem", destaca a jornalista, pedagoga e neuropsicopedagoga Lidiane Leite, autora de livros como "Cadê o resultado?", "Stop", "Certo ou errado" e "O que eles têm em comum?", publicados pela editora Matrix.

Segundo o neuropsicólogo Ary Maoski, a realidade que vivemos no mundo de hoje nos submete a uma variedade enorme de estímulos, circunstâncias, oportunidades e pressões que exigem de nós respostas, opções e decisões rápidas que podem nos levar a momentos de muito estresse. "Muitas vezes as expectativas que criamos em relação a nós mesmos, em relação às pessoas e aos acontecimentos não se realizam. Diante dessas situações podemos tomar duas atitudes internas: deixarmos nos afetar negativamente pela situação, manifestando nossa frustração e decepção, desistindo e deixando o negativismo tomar conta de nós; ou encararmos o problema de forma criativa, buscar superar os obstáculos, resistir às pressões e se adaptar às mudanças", explica. "Essa capacidade de lidar de forma consciente e construtiva com os problemas é que denominamos resiliência. Na resiliência, a pessoa identifica o que está acontecendo [crise, problema ou conflito], analisa as alternativas e mobiliza recursos para a sua superação. Isso é feito de tal forma que seu estado psicológico se mantém dentro dos padrões de controle e de normalidade", completa. 

Um dos aspectos para uma formação voltada à resiliência está relacionado a sentimentos e emoções considerados negativos, como a frustração diante da perda. Muitos pais tendem a querer poupar seus filhos desse tipo de sentimento, fazendo com que eles achem que a vida adulta será um completo e permanente "mar de rosas". "Todos nós, seres humanos que somos, temos dois componentes essenciais: a nossa capacidade intelectiva e a nossa capacidade emocional. Especificamente se referindo aos aspectos emocionais, em função das circunstâncias em que vivemos podemos demonstrar os mais variados tipos de emoções, pois elas fazem parte da complexidade humana: amor, ódio, ciúme, inveja, compaixão, alegria, tristeza, entre outras tantas emoções. Elas estão dentro de nós e se manifestam em função das circunstâncias", comenta Ary. "O problema não está em sentirmos algum tipo de emoção, e, sim, como a tratamos. Para a criança e mesmo para o adulto, sentir raiva, inveja, ciúme, frustração ou tristeza é uma reação espontânea de seu psicológico. Buscar sempre proteger os filhos, evitando situações em que as emoções não aflorem, não é uma boa alternativa para o fortalecimento da capacidade de resiliência deles. Na vida adultas, eles irão viver inevitavelmente situações conflitivas, estressantes, em que terão que dar respostas adequadas para os problemas que surgem."

Para Lidiane, aprender lidar com as emoções é tão importante quanto aprender números, letras e cores. "As crianças de 3 a 5 anos já devem começar a aprender a capacidade de identificar, nomear e lidar com suas próprias emoções. Cabe aos pais e aos educadores  treinarem as crianças a lidarem com as mudanças repentinas e descobrirem soluções alternativas para seus problemas. Sempre respeitando o momento de tristeza e de frustração, mas, depois, com empatia e respeito, conversar e mostrar para as crianças que nem sempre as coisas acontecem como a gente espera, mas é sempre possível continuar batalhando para chegar lá", declara.

E o mesmo vale ao incentivar as aptidões e talentos das crianças. Não é porque os pais amam balé ou futebol - ou gostariam que seus pais tivessem incentivado essas atividades quando eles eram pequenos - que seus filhos e filhas também vão gostar. "Em um mundo cada vez mais competitivo, os pais, preocupados com o desenvolvimento integral de seus filhos e de forma proativa, buscam as mais variadas oportunidades de formação em áreas como a esportiva, a artística e a cultural. O propósito de ampliar as oportunidades de aprendizado e desenvolvimento para as crianças é muito positivo, porém alguns cuidados se fazem necessário", pontua o neuropsicólogo. 

A pedagoga completa: "Na primeira infância, as crianças estão conhecendo diferentes esportes e instrumentos musicais. É um momento de novas sensações, experiências e conhecimentos. Só que, muitas vezes, podem não gostar de alguma atividades, e os pais não devem forçar nem colocar como obrigação. As crianças precisam ter afinidades e gostar do que estão fazendo. Portanto, manter-se ocupado é importante, mas o excesso de atividades pode resultar na perda de concentração e comprometer a saúde."

Ary aconselha aos pais colocarem seus filhos na escolha e na elaboração da agenda das atividades a serem aprendidas por eles, sempre tendo como principal critério de escolha a vontade e a motivação das crianças e não suas expectativas de adultos. "A cobrança excessiva por parte dos pais pode levar a um nível de tensão e desafio para a criança a ponto de fazê-la se cansar ou desistir da atividade. Também é importante que o volume de atividades não comprometa toda a agenda da semana, possibilitando que a criança tenha os seus momentos de estar consigo mesmo, de descanso e livre de compromissos. E mais: reconheça os esforços da criança nos mínimos resultados alcançados, buscando motivá-la no seu desenvolvimento, e acompanhe afetivamente a criança nos momentos de frustração e decepção quando os resultados não são os esperados."

Em suas palestras, Lidiane costuma exemplificar a resiliência da seguinte maneira: "Imagine na sua mão direita uma folha de papel e na outra mão uma esponja. Então, você imagina amassando os dois e os deixa comprimidos dentro das mãos fechadas. Depois de algum tempo abra as suas mãos, o que acontece? A folha de papel virou uma bolinha amassada, ou seja, mudou de forma, já a esponja ela volta ao que era antes. Isso significa que a esponja tem resiliência, o papel não."

Crianças são reflexos de seus pais

Quer que seus filhos e filhas sejam resilientes? Então, comece por suas atitudes. Isso porque as crianças tendem a ter seus pais como espelhos. "Dois aspectos no comportamento dos pais que consideramos relevantes na formação e no caráter da criança são a congruência e a constância. A congruência está relacionada à consistência entre o que os pais transmitem oralmente para os seus filhos e o que demonstram comportamentalmente no dia a dia. Essa característica de comportamento congruente fortalece nas crianças o sentimento de segurança, estabilidade, entre outros. A constância nas atitudes dos pais estimula o seu desenvolvimento psicológico de forma adequada, não gerando instabilidade e situações conflitivas aos filhos", destaca o neuropsicólogo Ary Maoski. 

Segundo a pedagoga e neuropsicopedagoga Lidiane Leite, os pais precisam entender que as crianças aprendem mais olhando o que fazemos do que escutando o que falamos. "Se os pais desejam que seus filho leiam livros, eles precisam ter esse hábito de leitura em casa para as crianças se espelharem", diz.

Essa questão também envolve o respeito à diversidade, seja de raça, sexualidade ou condição social. "Há estudos e pesquisas que evidenciam que a criança não faz distinção alguma entre as diferenças de raças, sexualidade ou condição social. São os preconceitos sociais que criam estas distinções. Possibilitar que a criança possa conhecer e conviver em diversos tipos de contexto, e que esta diversidade é algo normal e real na nossa sociedade, facilitará o desenvolvimento de uma pessoa flexível e aberta para aceitar o mundo como ele é."

Lidiane ainda destaca que, para evitar que seu filho sofra, é preciso prestar atenção em sintomas como: recusa em sair de casa, dificuldade para dormir ou acordar, mudança no humor, perda ou excesso de apetite, baixo rendimento escolar, dores de cabeça, irritabilidade, tristeza e agressividade em excesso. "Caso perceba procure um profissional de sua confiança."

 
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