TERCEIRA IDADE

Fazer exercícios físicos em casa é a solução para quem não quer ficar parado

Com uma dose extra de criatividade - e algumas adaptações -, pessoas da terceira idade estão mostrando que é possível praticar atividades como caminhada e corrida em casa


Elísio Vieira de Faria durante as corridas que pratica em casa
Elísio Vieira de Faria durante as corridas que pratica em casa - Johnny Torres 8/5/2020

Manter o corpo em movimento tem sido um desafio para idosos que, antes do período de isolamento social imposto pela pandemia do novo coronavírus, se dedicavam a atividades físicas como caminhada e corrida. Com uma dose extra de criatividade - e algumas adaptações -, é possível driblar o sedentarismo, mantendo o corpo (e a mente) em forma durante a quarentena.

O aposentado Odair Marques Barbosa, de 70 anos, transformou a sua casa em uma pista de caminhada. Praticante de atividade física há mais de dez anos, ele teve de adaptar a sua rotina de exercícios ao único espaço disponível e seguro que tem no momento. "Estou com o colesterol um pouco alto, então não posso ficar parado durante a quarentena. Faço caminhada no meu quintal e dentro da minha casa. Faço uma hora de caminhada todos os dias", diz ele, que conta com a companhia e o incentivo da esposa, Erundina.

Barbosa conta que, com o início do isolamento social, chegou a ficar parado em casa por alguns dias. E o corpo começou a dar sinais de que queria se movimentar. "Eu não faço grandes esforços, mas mantenho uma rotina de exercícios físicos. Quando essa rotina é interrompida, o corpo sente. Não tem jeito", destaca o aposentado, que, antes da pandemia da Covid-19, frequentava as aulas de pilates do Sesc Rio Preto. "Já fiz vários tipos de atividade física no Sesc, mas agora me dedico apenas ao pilates e às caminhadas, que faço com a minha esposa."

As sessões de caminhada são complementadas com uma série de exercícios de ginástica funcional, que o casal pratica a partir dos vídeos disponibilizados pelos professores do Sesc. "Desde que a quarentena começou, os professores estão enviando vídeos ou indicando exercícios de algum site. Não é a mesma coisa que ir às aulas no Sesc, mas já ajuda bastante."

Ritmo de maratona

Desde quando começou o período de quarentena, o professor aposentado Elísio Vieira de Faria, de 67 anos, já correu uma distância equivalente a mais de quatro maratonas (42,2 quilômetros). E isso sem botar os pés para fora de casa.

"Desde o dia 25 de março, a minha 'praça de treinos' tem sido os dois corredores laterais e as áreas de frente e de fundo da minha casa, que ocupa um terreno de 450 metros quadrados", revela. "A pandemia exige recolhimento. Sigo à risca essa determinação não só porque sou do grupo de risco, mas em respeito à vida das outras pessoas", acrescenta.

Antes da pandemia da Covid-19, Faria tinha uma rotina de atividades físicas bem movimentada - iniciada há cerca de oito anos, quando se aposentou. Ele integra um grupo de corridas que tem aulas, duas vezes por semana, na pista da Av. José Munia. Além das aulas regulares, os integrantes também se encontram para praticar "longão", como é conhecida a corrida despretensiosa, sem supervisão, feita geralmente aos finais de semana. "Meus lugares preferidos para correr são a região do Quinta do Golfe, a Estrada da Matinha e a vicinal Dr. Arroyo [antigo IPA]. Também corria na região da Represa e na vicinal de Schmitt", enumera.

Além da corrida, ele também se dedicava ao vôlei adaptado, com treinos duas vezes por semana, além de sessões de ginástica funcional e ciclismo, para fortalecimento dos membros inferiores e o desenvolvimento cardiorrespiratório.

Em casa, antes das corridas, Faria sempre faz aquecimento e alongamento, além de acompanhar o seu desempenho por meio de um aplicativo. "Tenho observado uma evolução no tempo que levo para completar cada quilômetro. O aplicativo funciona como o meu vetor, e vou disputando comigo mesmo a superação de desafios", comenta ele, que conta com o incentivo da esposa, Sueli.

O professor aposentado reconhece que correr em um espaço limitado tem diferenças em relação ao ar livre, sem contar o prazer em se praticar uma atividade em grupo. "A passada desacelera devido ao espaço físico. E isso exige mais intensidade nos aquecimentos e alongamentos. Já na rua, está o clima do grupo, a energia dos amigos, a motivação, o papo antes da prática, as amizades que são feitas e as risadas."

Sobre a adaptação de suas atividades físicas a uma realidade inesperada, Faria cita uma reflexão do sociólogo Roberto da Matta no livro "A Casa & A Rua". "O autor diz que o espaço é como o ar que se respira. Sem o ar a gente morre. Para sentir o ar, segundo o autor, é preciso situar-se, meter-se em uma certa perspectiva", cita.

"Então, foi o que eu fiz desde a quarentena. Senti em minha casa, meu quintal, minha vida essa segurança, esse ar, essa possibilidade em termos de pandemia. Já que se não vai à rua, se tem a casa, se tem o espaço, eis a oportunidade. Preso por uma necessidade humana vital, o aprendizado é de que não é impossível deixar de se movimentar se houve uma disponibilidade de espaço para desfrutar da liberdade de correr também em casa."

Divulgação

Praticar uma atividade física em casa exige uma série de cuidados, principalmente quando o assunto é segurança. "Ao escolher um espaço em casa para praticar exercícios físicos, evite lugares que tenham algum degrau ou tapetes. Crie um cantinho específico para o seu treino diário. Se for utilizar algum material, é recomendado que ele seja simples, para a execução do movimento ficar boa e evitar algum tipo de acidente", recomenda a educadora física Charlene Trevizan Viana Ferreira, da academia Solo, de Rio Preto.

Segundo ela, a orientação profissional também é importante, assim como ocorre no ambiente da academia. "O seu treinador conhece o seu nível de aptidão física. O professor fará com que você continue obtendo estímulos corretos e eficazes para o seu corpo, o deixando mais seguro e evitando acidentes. É um processo pedagogicamente estruturado que visa o aprimoramento das potencialidades de cada um."

A educadora física destaca ainda que, além de se manter fisicamente ativo, é importante cuidar da imunidade do organismo, ou seja, a atividade física tem de estar aliada à hidratação, uma boa alimentação e higienização das mãos. "Sem contar, claro, com um bom alongamento ou uma auto liberação miofascial para as tensões musculares", sinaliza.

Para entrar no clima da nova rotina de atividade física, Charlene recomenda a criação de um cronograma com dias e horários para os exercícios. "Vista-se como se fosse para a academia, escolha a sua playlist de músicas preferida, curta seu novo espaço, sua academia cadeira e 'bora' se movimentar."