SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | SEXTA-FEIRA, 24 DE SETEMBRO DE 2021
Painel de Ideias

Do papel à vida cotidiana

Não podemos perpetuar a segregação social oriunda da falta de acesso aos meios, aos conteúdos, às facilidades. Em 2020, computadores, celulares e notebooks deveriam ter sofrido exclusão total de impostos

Harlen FelixPublicado em 11/01/2021 às 21:18Atualizado há 06/06/2021 às 14:18
Não podemos perpetuar a segregação social oriunda da falta de acesso aos meios, aos conteúdos, às facilidades. Em 2020, computadores, celulares e notebooks deveriam ter sofrido exclusão total de impostos (Arquivo)

Não podemos perpetuar a segregação social oriunda da falta de acesso aos meios, aos conteúdos, às facilidades. Em 2020, computadores, celulares e notebooks deveriam ter sofrido exclusão total de impostos (Arquivo)

Estamos a poucos dias da realização do Exame Nacional do Ensino Médio e de outras importantes avaliações referentes ao atípico ano de 2020. O Enem representa porta de acesso ao ensino superior para milhões de estudantes, somando-se aos vestibulares tradicionais também adiados. Desde sempre, o Brasil está sedimentado em uma estrutura pautada na desigualdade social. Na pátria descrita por Gilberto Freyre na obra visceral "Casa-Grande & Senzala" como sendo terra de oportunidades diferentes e já demarcadas no nascimento, há pessoas equivocadas ou de mau caráter que insistem na ilusão pérfida da meritocracia. Como explicar a essa gente cega ou má que o acesso aos instrumentos e à internet de qualidade são apenas mais dois fatores para agregar privilégios a certas camadas sociais? E a profusão de cursos online disponíveis ao sabor do clic e do cartão de crédito?

Como professor, atuo na rede privada há 30 anos, e sei que o acesso à educação particular constitui investimento dos familiares para que seus filhos tenham estrutura, corpo docente e materiais diferenciados. Em função da pandemia, a situação já dificultosa de grande parte do alunado beira a tragédia. De um lado, alunos sem computadores e munidos de celulares obsoletos disputam o sinal da internet oscilante em busca de instrução. Aos problemas econômicos, soma-se a exclusão social de quem vivencia a cidadania de papel tão bem descrita por Gilberto Dimenstein. De outro lado, escolas particulares investiram pesado em tecnologia para colocar na rede as aulas, as revisões, os conteúdos, e os alunos podem usar computadores, notebooks, celulares sofisticados, internet ilimitada. Às facilidades da tecnologia, somam-se o conforto da moradia, o alimento disponível, o apoio pedagógico. E há quem diga que o sol nasce para todos, que as oportunidades estão aí à espera de quem as persiga.

De acordo com o filósofo francês Pierre Lévy, "toda nova tecnologia cria seus excluídos". Para ele, a tecnologia não é culpada pelo dano causado aos desprovidos de acesso. Por certo, o dano decorre de políticas públicas ineficazes e de uma estrutura social pautada na manutenção secular do privilégio de acesso. Não se pode negar a evolução que a internet traz na área da educação: aulas remotas, aproximação entre docente e aluno em época de distanciamento social, plantões para esclarecer dúvidas. Entretanto, não podemos perpetuar a segregação social oriunda da falta de acesso aos meios, aos conteúdos, às facilidades. Em 2020, computadores, celulares e notebooks deveriam ter sofrido exclusão total de impostos, e sua compra deveria ter sido estimulada por meio de subsídios, acesso a crédito. Doações também seriam importantes. E o sinal de wifi deveria ter sido alçado à condição de direito inalienável para uma geração de estudantes privados do saber.

Enfim, sou professor da rede privada, disponibilizei acesso aos meus alunos/clientes durante todo o ciclo tanto quanto o fizeram meus colegas. Vivenciei problemas e vantagens do período: de positivo, a velocidade de resposta da classe docente para não prejudicar os infantes. De negativo, saber que muitos e brilhantes jovens não tiveram acesso ao conteúdo e serão julgados por incompetentes quando, na verdade, foram vítimas da inépcia estatal em todas as instâncias e da omissão social de quem cultua uma meritocracia inexistente. Para quem considera a educação cara, uma dica: você já computou o preço da ignorância? A falta de instrução de qualidade deteriora os indicadores sociais na área da segurança, da saúde, da economia e, ainda pior, alimenta grupelhos de negacionistas, de obscurantistas, de fantoches e de idólatras que precisam de heróis, de gurus e de falsos profetas para dar sentido a suas vidas vazias. Em suma, o Enem é um termômetro tanto quanto os demais exames. Eles indicam a febre, mas não a causam. Culpar o termômetro é uma loucura. Precisamos, isso sim, de justiça social e de acesso universal à cidadania plena cotidiana que ultrapasse as barreiras utópicas da Constituição.

WASHINGTON PARACATU, Professor de Língua Portuguesa e Redação em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras

 
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