SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | QUARTA-FEIRA, 06 DE JULHO DE 2022
PAINEL DE IDEIAS

Shakespeare cancelado

Munidos de discursos panfletários, esvaziados de qualquer noção crítica, manifestantes virtuais defendem cegamente suas agendas ideológicas, como se tais protestos pudessem resolver problemas estruturais de desigualdade

Francine Moreno
Publicado em 05/12/2020 às 00:00Atualizado em 06/06/2021 às 15:58
Munidos de discursos panfletários, esvaziados de qualquer noção crítica, manifestantes virtuais defendem cegamente suas agendas ideológicas, como se tais protestos pudessem resolver problemas estruturais de desigualdade (Divulgação)

Munidos de discursos panfletários, esvaziados de qualquer noção crítica, manifestantes virtuais defendem cegamente suas agendas ideológicas, como se tais protestos pudessem resolver problemas estruturais de desigualdade (Divulgação)

Você já ouviu falar sobre a "cultura do cancelamento"? O movimento surgido nas redes sociais em 2017 buscava justificar o boicote a personalidades que tivessem cometido alguma violência, no mundo real ou virtual.

Desde então, justiceiros digitais têm empunhado suas hashtags (#) como armas, de modo que já não é mais necessário ter cometido crime algum para ser "cancelado".

Munidos de discursos panfletários, esvaziados de qualquer noção crítica, manifestantes virtuais defendem cegamente suas agendas ideológicas, como se tais protestos pudessem resolver problemas estruturais de desigualdade, ou ainda, fossem romper com as estruturas que sustentam os privilégios de uma determinada classe - raça ou gênero - em detrimento de outra. Infelizmente, não é assim que as mudanças sociais acontecem, nós sabemos.

E essa "histeria coletiva", que comete anacronismos gravíssimos e desconsidera ser a literatura o retrato de uma época - ao mesmo tempo em que desconsidera o fato de podermos hoje defender o fim das desigualdades, das discriminações e preconceitos, uma clara evolução das sociedades de nossos antepassados - fez com que um grupo de 150 jornalistas, intelectuais, cientistas e artistas, dentre eles o renomado linguista Noam Chomsky e a escritora J.K. Rowling - que deu vida à saga Harry Potter" - lançasse em julho deste ano um manifesto intitulado "Uma carta sobre Justiça e Debate Aberto", publicado pela Harper's Magazine, pedindo, nada mais, que o fim da intolerância e a "permissão" para que o pensamento plural pudesse ser novamente considerado.

Sendo os movimentos ideológicos famintos, evidentemente não houve melhora, e como a falta de bom senso parece não ter fim, depois de "cancelarem" artistas de diversos segmentos, agora estão sendo cancelados personagens históricos: o ex-primeiro-ministro da Inglaterra, Winston Churchill, morto em 1965, foi cancelado por declarações racistas e colonizadoras - ora, o Reino Unido reconheceu a independência do Zimbabwe só em 1980! - e nem uma única linha sequer fora mencionada sobre sua importância política para a derrubada do Estado Nazista, como estrategista da vitória do Bloco dos Aliados. Por aqui, em terras tupiniquins, Monteiro Lobato também foi cancelado e considerado racista, mesmo fazendo parte de uma sociedade cujo distanciamento histórico não era ainda suficiente para que as reflexões e mudanças sociais tivessem sido realizadas. Felizmente, hoje há.

E tem mais! A novidade da última semana vem com o pedido alucinado de cancelamento de Willian Shakespeare. Motivo: os "canceladores" descobriram que Romeu, aos 17 anos, cortejava uma Julieta às vésperas de completar 14. Veredicto dos justiceiros digitais: conduta imprópria do moço, acusado de ser um abusador.

Diante dessa conjuntura, proponho uma reflexão: não seria essa uma boa hora para voltarmos a valorizar o conhecimento histórico, incentivar a leitura e o senso crítico de nossas crianças, de modo que a próxima geração esteja a salvo de tornarem-se "cruzados do cancelamento"?

João Paulo Vani

Presidente da Academia Brasileira de Escritores (Abresc). Escreve quinzenalmente neste espaço aos sábados

 
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