Comunic(ação): a arte de tornar comum

Painel de Flores

Comunic(ação): a arte de tornar comum

A responsabilidade de quem estuda, lê, escreve, pesquisa, comercializa, enfim, se comunica de forma habilidosa é usar tal habilidade para perceber a lacuna do outro no processo comunicativo e, sempre, procurar incluí-lo; não o contrário


Letícia Flores
Letícia Flores - Reprodução

"Quem não se comunica, se trumbica" - dizia o saudoso apresentador televisivo José Abelardo, mais conhecido como Chacrinha. Sua fala é tão significativa que ecoa mesmo após décadas de sua morte, inclusive pela voz de jovens que, como eu, nem eram nascidos quando da sua partida. Apesar de simples e categórica frase, é preciso considerar fatores por vezes subjetivos e até mesmo complexos que envolvem o processo comunicativo através das escolhas linguísticas que fazemos ao nos comunicarmos no nosso dia a dia.

Lembra-se do "cachorro claudicante" da última coluna? Ao compartilhar uma amostra das consultas veterinárias pelas quais passa minha família canina, intencionava suscitar uma breve reflexão a respeito das expressões que decidimos empregar em detrimento de outras. É muito comum que colegas de profissão ou mesmo leitores conservadores hasteiem a bandeira da norma culta da língua portuguesa e, a princípio, não há nada de problemático nisso - a não ser que a argumentação para tal venha seguida de outros sintomas que, somados e articulados, reforcem uma prática muito comum de marginalização social: o preconceito linguístico.

"E lá vem a professora licenciada pela universidade pública causar balbúrdia". Pois é: viver a experiência de estudar em instituições públicas e delas ser parte, e delas ser braços e pernas e coração e voz transforma, indubitavelmente, nossa percepção de mundo (se você se permitir a isso, é óbvio). Isso porque a vida universitária rompe nossa bolha de privilégios - observe quantas das pessoas que ali estão tiveram acesso ao ensino privado anteriormente e tire suas próprias conclusões - e nos coloca em contato com pessoas diferentes, que se comportam de forma diferente, que viviam em cidades diferentes até então e, evidentemente, com sotaques e modos de falar diferentes dos quais estávamos acostumados até então.

No meu primeiro ano na faculdade de Letras, eu vestia a personagem arrogante que revirava os olhos cada vez que um colega soltava um "pra mim fazer" ou me ressentia de pena por aqueles que usavam o verbo "perca" no lugar do substantivo "perda". Aos poucos, meu próprio caráter preconceituoso foi se revelando e eu pude perceber como a nossa falta de sensibilidade enquanto comunicadores é capaz de aprofundar ainda mais os vincos sulcados nas nossas relações em serviço das desigualdades.

É importante preservar nossa língua? Evidentemente, assim como a história (a verdadeira, não a inventada pela inapetência intelectual de quem defende ditadura como revolução, deixemos isso bem claro), os monumentos históricos, a natureza. O que torna-se desserviço à língua e aos falantes é usar o argumento de "preservação da língua" para excluir, julgar, subjugar e humilhar quem - independentemente de por quais motivos - não desenvolveu as ferramentas linguísticas necessárias para interpretar determinados discursos.

O que fazer, então? Ora, se em uma nação onde a educação e a ciência são sistematicamente desvalorizadas - e vivem especial declínio e desprestígio desde a ascendência de um sistema político conservador, imaturo e deficiente -, quem tem a oportunidade de acessá-las tem o dever de se colocar no lugar dos receptores da mensagem que se pretende emitir, procurando facilitar o quanto possível sua compreensão, sem, por meio disso, usar de ironias que constranjam esses interpretantes.

A responsabilidade de quem estuda, lê, escreve, pesquisa, comercializa, enfim, se comunica de forma habilidosa é usar tal habilidade para perceber a lacuna do outro no processo comunicativo e, sempre, procurar incluí-lo; não o contrário.

Você pode ter feito graduação sanduíche em Harvard, ter mestrado na Escócia, pós-doutorado no raio que o parta… se não for capaz de incluir um ser humano sem as mesmas habilidades que você enquanto se comunica - seja facilitando a recepção da mensagem, seja esforçando-se para interpretar uma fala truncada - com amorosidade e acolhimento, você é só mais um grão de mediocridade e hipocrisia nesse saco gigantesco de farinata que sobra nas bandejas das praças de alimentação superlotadas que você frequenta em plena pandemia enquanto usa uma camiseta "respeite o próximo; preserve o meio ambiente; seu voto pode mudar tudo".

LETÍCIA FLORES, É professora de Língua Portuguesa, revisora e escritora em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras