Palavras quase impublicáveis

ARTIGO

Palavras quase impublicáveis

Eu mesmo, na memorável rádio Independência, deixei escapar a palavra 'sacanagem', que, na época, era palavrão, fazia parte do índex das expressões chulas da língua portuguesa, completamente intolerável para uma rádio


José Luís Rey | jlrey@paginaimpar.com.br
José Luís Rey | [email protected] - Divulgação

- Quer saber? A senhora é uma lambisgoia...

- Lambisgoia, uma pinoia! Você que é um embrulhão... Xarope!

- Sirigaita!

- Vê se vai te catar, zé ruela...

- Vai você, rolha de poço. Você é uma mula velha, isso sim...

- E você, que é um toco de amarrar jegue...

A troca de elogios entre dona Nenê e seu João, provocada pelo desentendimento que se seguiu ao acidente causado pela bola de futebol do neto dele, que espatifou o estimado vaso de antúrios no alpendre da casa dela, prova que o exercício do xingamento é uma coisa que também está sujeita à ditadura dos modismos. Ou seja: xingar também tem moda.

- Vê se não enche, sua pintora de rodapé...

- Quatro olho...

- Songa monga, mocoronga...

- Não tenho tempo a perder, centopeia manca...

Acho que ninguém mais xinga nesses termos, embora as pessoas ainda xinguem, se bem que, hoje em dia, recorrendo a palavras com maior teor explosivo, palavrões mesmo, daqueles impublicáveis. Dona Nenê e seu João, é bom que fique claro, são personagens fictícias, mas é improvável que o leitor cuja soma de janeiros já tenha superado as quatro dezenas não se lembre de algum diálogo desse tipo.

Nessa época, palavras como "bunda" e "merda" ainda eram abomináveis e as simplificações chulas que desaguaram em fórmulas do tipo "fiodaputa" e "taqueopariu" soavam absolutamente impudicas. Pronunciadas ainda que sob o efeito dolorido de uma martelada no dedo, por exemplo, equivalia a uma grande heresia, quase um "pecado mortal", ensinariam as tias mais velhas.

Nos meios de comunicação, então, nem se fala! O que hoje virou bordão em programas televisivos da tarde provocava reações indignadas e normalmente eram sucedidas por segundos de silêncio e por mudanças rápidas de assunto para desanuviar o ambiente.

Mas, às vezes, as coisas fugiam ao controle. Eu mesmo, na memorável rádio Independência, deixei escapar a palavra "sacanagem", que, na época, era palavrão, fazia parte do índex das expressões chulas da língua portuguesa, completamente intolerável para uma emissora de rádio.

Fiquei preocupado, mas o deslize, é claro, não deu em nada. Pensando, depois, me autoconvenci de que não tinha cometido nenhuma infração grave. Afinal, qual era o problema de falar "sacanagem" em um veículo que, anos antes, já havia tornado famoso o desastrado improviso de um repórter de campo de futebol que resumiu, numa frase enrubescedora o bate-rebate entre zagueiros e atacantes durante um quase-gol, dizem, no velho campo do América:

- ... foi um verdadeiro cu-de-pinto na área...

E outra, mais ou menos da mesma época, atribuída ao narrador de futebol que descreveu um chute na trave;

- Senhoras e senhores: a bola bateu no pau do goleiro e saiu...

Não sei não, mas desconfio que os ouvintes devem ter xingado o locutor de estropício, miolo-mole, cabeça oca...

Palavrão, não - diria dona Nenê, após aquela discussão com seu João por causa do vaso de antúrio:

- Na minha vida, eu nunca falei um palavrão que fosse. Neca de pitibiribass de palavrões!

Neca do que, doa Nenê?

JOSÉ LUÍS REY, Jornalista em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos