Aprendendo a não esperar

Painel de Ideias

Aprendendo a não esperar

Na teoria, sabemos que não temos o direito de cobrar do outro algo que talvez só a gente ache correto. Sabemos que cada um tem um jeito de pensar, de agir, de reagir. E que, no fundo, no fundo, deveríamos respeitar as diferenças de opinião e atitude sem cobrar isso das pessoas que amamos


Patricia Andrik | patricia.andrik@gmail.com
Patricia Andrik | [email protected] - Divulgação

"Estado de quem espera um bem que se deseja e cuja realização se julga provável". A definição do dicionário para "expectativa" é exatamente a que temos em mente. Entretanto, nas linhas finas, não há nenhum alerta do tipo "criar expectativas demais pode ser prejudicial à saúde", "criar expectativas pode te magoar profundamente", ou coisa parecida...

Talvez os dicionários não queiram nos subestimar com esse tipo de mensagem explícita já que, na prática, a gente não precisa de muita vivência pra perceber que isso acontece quase que o tempo todo - mesmo sem ter um desses avisos em letras piscantes e garrafais.

Para ser sincera, sempre fui dessas que espera demais e já me chateei muito - muito mesmo - por achar que as pessoas deveriam tomar as mesmas atitudes que eu tomaria se estivesse naquela determinada situação. Também já me empolguei muito com promessas que nunca foram cumpridas e por acreditar em "evidências" que só eram evidentes na minha imaginação. Acho que, no fundo, pessoas como eu têm uma certa "mania" de querer ver as coisas com lentes cor de rosa - seja por paixão ou pura simpatia - sem enxergar como elas realmente são. Somos "Alices" em tempos modernos, sonhando com o País das Maravilhas, mas presas entre o mundo real e a toca do coelho...

Na teoria, sabemos que não temos o direito de cobrar do outro algo que talvez só a gente ache correto. Sabemos que cada um tem um jeito de pensar, de agir, de reagir. E que, no fundo, no fundo, deveríamos respeitar as diferenças de opinião e atitude sem cobrar isso das pessoas que amamos. Mas a verdade é: quem consegue aplicar isso no dia a dia? Quem veste uma carapaça forte o suficiente para não ser atingido por aquela flecha afiada da decepção? E, sobretudo, quem espera pouco o bastante para ser surpreendido positivamente quando o outro demonstra - um tiquinho só que seja - de carinho, amor e respeito?

Sou dessas que quer sempre mais, admito! E continuo errando ao cultivar essas sementes de expectativa. Mas sei que não estou sozinha. Há muitos como eu por aí... Amigos, colegas de trabalho, filhos, irmãos, pais, namorados... Todos em busca de um reconhecimento, um elogio, uma pequena ação de cordialidade. Uma gentileza, um gesto que não precisa ser grande, mas que demonstre uma palavra de enorme significado: consideração!

Queremos planos, dedicação, entrega! Queremos algo que chega, que torna as expectativas reais! Não sei se falta coragem pra uns, ou se sobra esperança pra outros. Mas a verdade é que, enquanto nada disso que citei acima acontece, vamos diminuindo cada vez mais os nossos anseios em prol da autopreservação, do medo da dor, da ideia de sofrer com mais decepções.

É justo? Não acho que seja. Porém, muitas vezes, é o melhor que temos a fazer. Porque mesmo quando você espera o mínimo do mínimo, sempre existirá alguém capaz de te decepcionar.

Então, numa época em que evitar o sofrimento tem sido fundamental para sobreviver às intempéries da vida, o jeito é simplesmente (tentar) aprender a não esperar.

PATRÍCIA ANDRIK, Jornalista em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço aos sábados