Palavra é Poder

Painel de Ideias

Palavra é Poder

Não deixemos que o prazer da serventia, ao trazermos novos dados à discussão, seja superior a credibilidade da informação. Todos somos 'formadores de opinião' em maior ou menor escala


Adriana Neves
Adriana Neves - Divulgação

Recentemente terminei o texto "Ainda mais conectados" dizendo que conhecimento é quando a informação encontra significado. Hoje, eu gostaria de explorar o que ocorre quando isso não acontece, quando a informação não se anexa a uma fundamentação ou mesmo um sentido.

Pode soar contraintuitiva a crença de que ao termos acesso a bases de dados gigantescas nos tornamos especialistas em falar demais, justamente por não termos nada a dizer. Porém, é exatamente isso que testemunhamos todos os dias, seja espelhado nas tão populares fake news ou apenas em crendices sem alicerce algum. Segundo estudo do Reuters Institute Digital News Report (departamento de jornalismo da Universidade de Oxford), o Brasil é o terceiro país com maior incidência e compartilhamento de fake news no mundo. Além disso, a desinformação nunca foi tão relevante para o cenário político. Vale interiorizarmos o alerta do MIT (Massachusetts Institute of Technology) sobre o debate político atual: "Definir o que é verdadeiro ou falso se tornou uma estratégica política comum, substituindo debates baseados em fatos mutuamente acordados". Ou seja, mais do que nunca se tornou uma obrigação civil verificar as informações antes de repassá-las.

Não nego que é prazerosa a sensação de utilidade ao ser a primeira pessoa a trazer uma notícia para os parentes e amigos. Porém, o desserviço que uma notícia falsa ou uma informação sem fundamento traz para o tecido social é imensurável. Esse dano já é visível em diversas áreas do conhecimento, mas em especial na crescente descrença em relação ao conhecimento e ao método científico.

Por outro lado, como apontado pelo colunista venezuelano Moisés Naím no espetacular "O Fim do Poder" (2013), o fato de termos admissão em um mundo de elementos, matérias, notícias e, por consequência, a informação, fez com que estivéssemos em um momento histórico no qual o poder se houvesse fragmentado, escorrido para as camadas mais mundanas da população justamente pelo fato de ter a porta aberta para o acesso ao conhecimento. Gostaria também de associar Naím com o economista ganhador do prêmio Nobel de 1974, Friedrich Hayek, e sintetizar uma de suas teorias nas quais a informação está distribuída (ou deveria estar) de forma homogênea na sociedade, ou seja, o acúmulo de informação, ou ainda a manipulação da verdade, em qualquer conglomerado de pessoas ou ideal político é extremamente nocivo para a sustentabilidade de uma sociedade. A informação é o novo petróleo e assim será.

Com o alerta do autor Francis Bacon, feito em 1597, na qual "ipsa scientia potestas est", ou seja, conhecimento em si é poder, gostaria de por fim, reiterar: não deixemos que o prazer da serventia, ao trazermos novos dados à discussão, seja superior a credibilidade da informação. Todos somos "formadores de opinião" em maior ou menor escala, logo possuímos a responsabilidade de bem informar os que estão ao nosso redor.

ADRIANA NEVES, Empresária em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras