O último ato

Painel de Ideias

O último ato

Familiares e amigos são as bases de amparo, atenção e cuidados. Sem críticas, sermões ou cobranças. Não se trata de frescura, preguiça, falta de fé ou atitude. É desespero, angústia, sofrimento, um distúrbio biopsicossocial que, a cada 40 segundos, subtrai uma vida no mundo


-

Quando a dor ultrapassa todos os limites, o prazer e a vontade inexistem, as relações perdem o sentido, o mundo se torna hostil e viver causa estranheza, ainda existe saída. Quando o ar não chega aos pulmões, o peito pesa de angústia, a solidão é uma constante e, nesse grande vazio, não há onde se encaixar, ainda existe saída. Quando o mínimo é insuportável e tudo não basta, não é ingratidão, mas uma combinação perigosa de condições ambientais doloridas, fatores biológicos e comprometimento psicológico.

No cérebro, alguns neurotransmissores não estão funcionando bem e a serotonina não cumpre seu papel de regular o humor. Daí a grande tristeza. A mente não compreende esses processos. O pensamento caótico formula julgamentos negativos sobre si mesmo, sobre os outros, sobre o mundo, como se as lentes da percepção perdessem a capacidade de captar qualquer estímulo positivo e contemplassem, apenas, as adversidades, com zoom. Tudo está alterado.

Numa espiral descendente de atordoamento, desprazer e dor, o respirar sufoca e pensar, pesa. A sensação de descontrole e a convicção de incapacidade para viver aceleram o precipício. A ideação suicida surge como solução final. Um desfecho trágico para um mal tratável. A pior escolha para uma situação reversível. O último e menos louvável ato de uma existência.

A saída do fundo do poço só é possível subindo, não afundando. O resgate da sanidade depende da ação coordenada de uma rede de apoio social, suporte adequado de familiares e amigos, assistências médica e psicológica imediatas. Os medicamentos antidepressivos, prescritos e acompanhados por um psiquiatra, estabilizarão os processos neuroquímicos cerebrais para melhorar o humor, regular o sono e reduzir a ansiedade. A psicoterapia ajudará na compreensão do transtorno, reestruturação do pensamento e construção de respostas para enfrentamento da crise.

Familiares e amigos são as bases de amparo, atenção e cuidados. Sem críticas, sermões ou cobranças. Não se trata de frescura, preguiça, falta de fé ou atitude. É desespero, angústia, sofrimento, um distúrbio biopsicossocial que, a cada 40 segundos, subtrai uma vida no mundo. Um transtorno tratável, desde que identificado e manejado corretamente.

Vida e morte são temas sérios, urgentes. O socorro não pode ser adiado, nem a vida abreviada. O intervalo tem de ser coerente, razoável. Medos e tabus não devem inibir a discussão e a ignorância e o silêncio não podem prevalecer. Entre a dor e a decisão extrema de morte existem tratamentos e, para todos os problemas, soluções. Suicídio não é sinal de coragem ou covardia. É transtorno mental. É digno buscar, encontrar e aceitar ajuda.

Setembro Amarelo é um meio de conscientização de que a vida é para ser vivida sem atalho, com qualidade, saúde e respeito. É tempo de reflexão para todos os dias da vida, sobre todas as vidas do mundo.

MARA LÚCIA MADUREIRA, Psicóloga Cognitivo-comportamental em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras