Quilômetro 41, Pará

Painel de Ideias

Quilômetro 41, Pará

O mapa do Google me deu um susto. A floresta, que estava a menos um quilômetro da vila por um lado e, do outro fazia quintal para a serraria, agora está longínqua. Só pastagens demarcam os tons de verde do mapa


À frente da THS, Lelé Arantes é um dos precursores do mercado editorial de Rio Preto
À frente da THS, Lelé Arantes é um dos precursores do mercado editorial de Rio Preto - Mara Sousa/Arquivo

Os irmãos paranaenses, louros e barbudos, de pouca conversa, soltaram os cabos-de-aço que seguravam as toras em cima do caminhão. Eles eram de pouca prosa, pelo menos comigo. Mantinham uma distância prudente porque, certamente, viam em mim o representante daqueles que pagavam pela madeira que entregavam. Sabiam que eu não mandava em nada. Ou seja, literalmente, eu apenas um pau mandado.

Soltaram as três toras. Um ipê, um angelim-rosa e uma cedro arana enorme, com mais de um metro e meio de rodo (diâmetro). Todas dariam boas tábuas e vigotas. Minha tarefa com eles era apenas medir a madeira, anotar e pagar quando chegava o fim do mês. Fiquei seis meses nesta serraria e nunca soube o nome deles. Eram os paranaenses. E ponto. Moravam a sete quilômetros, em Nova Ipixuna, quase defronte a serraria Zibetti.

A serraria que me empregava, a São Francisco, estava localizada na altura do Km 41, do estradão de terra, esburacado e poeirento, que ligava São Félix a Jacundá (rodovia PA-150), numa região em que, nos anos de 1970, o governo militar fez uma reforma agrária. Para escrever essa crônica recorri ao Google Maps e fiquei admirado com o crescimento da Vila Quilômetro 41, que agora tem até ruas com nomes definidos. Acho que a serraria não existe mais.

Confesso, senti saudade.

Saudade dos amigos de lá. Foi lá, na venda do seo Teodoro, que comi carne de macaco capelão pensando que era capivara. Admito, estava muito bem temperada. Dona Terezinha era uma excelente cozinheira. Na venda do seo Nem, do outro lado da rua, era servido um requeijão de casca marrom com pintinhas pretas como pimenta-do-reino. Um dia eu descobri que as pintinhas, na verdade, eram simplesmente cocô de moscas. Claro que a pinga derretia tudo. Não havia eletricidade, portanto, cervejas eram servidas na temperatura natural, intragavelmente quentes.

Foi lá que cheguei ao ápice da minha crença. Acreditava que estava colaborando com a construção de um mundo melhor, auxiliando na Pastoral da Terra e em uma comunidade eclesial de base localizada à esquerda, em direção ao rio Tocantins. Meu herói era o bispo D. Pedro Casaldáliga.

O mapa do Google me deu um susto. A floresta, que estava a menos um quilômetro da vila por um lado e, do outro fazia quintal para a serraria, agora está longínqua. Só pastagens demarcam os tons de verde do mapa.

Fechei os olhos para rever os rostos morenos dos paraenses. A professorinha Toninha, a menina Florinda, a viúva Lourdes, a cozinheira Irene, e Selma, uma negra bela e espadaúda, e os meus amigos Manoel Ferrassol, Relampo, Passarinho, Elimar, Ezequiel, Tonho Motorista... Este havia servido no Batalhão de Selva e me contou como os paraquedistas mataram o líder comunista Osvaldão (Osvaldo Orlando da Costa) em Xambioá. Subiam de helicóptero e lá de cima soltavam o corpo que caia na área central da pequena cidade, à vista do povo. "Eu estava lá, eu vi. Subiram várias vezes e o corpo caia como um saco de batata", me contou ele, com um sorriso nos lábios. Falou também da morte da guerrilheira Dina (Dinalva Oliveira Teixeira) que, segundo ele, morreu metralhada com tantos tiros que seu corpo teria ficado amalgamado em um tronco de árvore...

Boas e perigosas lembranças tenho de Jacundá, onde fiquei internado quatro dias, num quarto com cerca de uma dúzia de camas. Todas ocupadas por doentes de malária, menos eu. Cada manhã saiam com três ou quatro corpos enrolados em lençóis e minutos depois as camas eram ocupadas por novos maleitosos. Por sorte não peguei a matadeira, mas ganhei uma namorada, uma bela enfermeira de rosto moreno, olhos verdes, voz mansa e sorriso bonito. Ainda bem que não morri.

LELÉ ARANTES, Jornalista, escritor, historiador e membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço às quartas-feiras