E o macarrão?

Painel de Ideias

E o macarrão?

Esse jogo de poder e submissão é indigesto demais para qualquer ser humano. É preciso muito amor à mão à massa para suportá-lo. Ainda assim, muitos orgulham-se de um passado assassino, desde que as mortes e torturas possam ser justificadas por bastante ouro no cofre de poucos


Letícia Flores
Letícia Flores - Reprodução

Ensinar e aprender a língua italiana ao longo dos últimos dez anos - ações aliadas ao avanço da idade e às minhas mudanças de prioridades pessoais - trouxe-me uma perspectiva peculiar a respeito da comida. O que antes era uma simples necessidade do organismo, floreada pelo prazer dos sabores, hoje ganha sentidos associados à cultura, à língua e à história de um país cuja essência é tão semelhante à nossa.

Tais similaridades ítalo-brasileiras, entretanto, não acontecem pura e simplesmente por conta de a massa ter ganhado popularidade no Brasil durante o processo de migração dos italianos para cá, mas especialmente pelo modo cuidadoso, apaixonado e engenhoso com o qual tantas 'mammas' transformaram a 'cucina' em um ponto de encontro familiar e - mais que isso - um porto seguro para corações aflitos, protegidos pelo acolhimento do amor que começa no plantio de milho e trigo, passa pela colheita, percorre os sentidos de tato, paladar, olfato e visão entre panelas borbulhantes, chega cuidadosamente ao prato e é degustado sob a rega de muito azeite, pães robustos e vinho tinto.

É instigante, entretanto, observar algumas diferenças nos ingredientes - estas em decorrência da necessidade de substituir produtos que não existiam aqui no Brasil - e nos costumes que deixam os nossos irmãos mais conservadores à mesa contrariados: cortar o spaghetti, acrescentar queijo em excesso às massas e catchup à pizza, exagerar na quantidade de condimentos, considerar "parmesão" e "parmigiano" a mesma coisa etc, etc, etc.

"Mas para que tanto preciosismo?", você pode estar se perguntando. Lembra-se quando relacionamos cozinha ao porto seguro para corações aflitos? Pois esta não se trata de uma aflição qualquer; é a aflição de um povo que se viu desconjuntado, dividido e submetido a muitos povos ao longo de sua história ao mesmo tempo em que carregam na barriga os reis que fizeram de Roma um grande - e cruel - império.

Esse jogo de poder e submissão é indigesto demais para qualquer ser humano. É preciso muito amor à mão à massa para suportá-lo. Ainda assim, muitos orgulham-se de um passado assassino, desde que as mortes e torturas possam ser justificadas por bastante ouro no cofre de poucos.

E o macarrão?

O macarrão é o que sobra para a massa (com o perdão do trocadilho). É o que resta de mais acessível para uma população desintegrada, que há apenas 150 anos não tinha identidade de país (sim, a Independência do Brasil aconteceu ANTES do Risorgimento italiano), que se contentava com "Francia o Spagna, purché si magna" (tanto faz se somos escravos da França ou da Espanha, desde que tenhamos o que comer). O macarrão - massas em geral - é o que há de mais acessível, barato e versátil para que não se morra de fome. Misture a massa com tomates e manjericão e sobreviva às dificuldades impostas ao povo por uma minoria que está SEMPRE renovando estratégias para manter seus próprios privilégios.

A Itália, apesar de ter sido um império, sucumbiu à exploração internacional e de empresários locais interessados em lucro. As intempéries vividas pelo seu povo refletem-se, até hoje, na língua, nos costumes, no prato. O Brasil, por sua vez, tão habituado à vida de colônia, vive atualmente a decadência da vida humana em detrimento de números, cheques, notas de R$ 200 e laranjas.

Sem arroz, sem Estado e sem noção alguma do que é ser pobre, o governo brasileiro dá de ombros para seu próprio povo, debocha da vida humana e faz um belo risotto com nossas vísceras. Sem arroz nem Estado nem noção, o que nos sobra é o macarrão.

LETÍCIA FLORES, É professora de Língua Portuguesa, revisora e escritora em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras