Frango de domingo e ossinho da sorte

Painel de Ideias

Frango de domingo e ossinho da sorte

Já não me lembro exatamente dos pedidos que costumava fazer antes de quebrar o ossinho. Se fosse hoje, um deles seria para que momentos mágicos como aqueles almoços de domingo nunca deixassem de existir


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Acho que hoje não é mais assim, mas houve tempo em que o domingo não acontecia se não tivesse o sabor e o aroma do macarrão mergulhado em molho de tomate - em épocas mais sofisticadas agregado de outras novidades italianas, como a lasanha e seu irrepreensível recheio de queijo e presunto, ou o nhoque de batatas, polvilhado por generosas porções de queijo ralado. E não apenas entre as famílias italianas - os espanhóis vez ou outra abandonavam o puchero e os garbanzos, os árabes substituíam às vezes os quibes, as esfias e o baba ghanoush... O Brasil era mesmo uma confraria de paladares...

Essas influências vinda da Europa e de outros lugares do mundo nos ensinaram a celebrar o almoço de domingo como um evento gregário ao redor de pais, tios, primor, avós e bisavós. Também nos ensinaram a prorrogar ao máximo a hora da comida, não apenas porque no domingo todos tinham mais tempo para jogar conversa ao redor da mesa, mas principalmente porque vingava a teoria de que o domingo acabava depois do almoço e que protelá-lo equivalia a ampliar o dia de folga.

É engraçado como, da perspectiva da infância, uma garrafa de guaraná Arco Íris - aquela garrafa verde - dava para todo mundo. Hoje, eu acho que os pais se privavam do refrigerante de modo a sobrar mais para os filhos, só pode ser isso, porque às vezes sobrava um pouco até para o jantar.

Mas voltemos ao macarrão, que tinha que ser feito em casa, o molho de tomates também - as donas de casa ainda não tinham sido apresentadas à Pomarola. O cardápio quase invariável dos almoços de domingo reservava à maionese o privilégio de abrir o desfile de delícias, tal qual um carro alegórico de batatas, ovos, cenouras, azeitonas e ervilhas - palmito às vezes.

De uns tempos para cá, as ameaças da modernidade acabaram por nos roubar a chance da maionese verdadeira, batida em casa, deliciosamente amarelinha, produto de um trabalho que exigia perícia das cozinheiras que, se não estivessem em dia de mão boa, punham o creme a desandar.

O frango assado, outro personagem dessa mesa, chegava vivo da feira, tinha o pescoço destroncado, era depenado e sapecado e ia para o forno depois de ganhar recheio de farofa. Quando chegava à mesa, era capaz de suscitar disputas infantis pelos miúdos cozidos à parte - um só coraçãozinho e uma única moela.

Os frangos deveriam ter vários corações e muitas moelas, eu chegava a propor nessas ocasiões. Hoje, parece que têm mesmo.

Era o frango que também propiciava o momento lúdico desses almoços, quando aparecia o ossinho da sorte, a pequena forquilha do peito que deveria ser puxada pelas extremidades até quebrar, enquanto se fazia mentalmente um pedido. Seria atendido o pedido de quem ficasse com o maior pedaço do osso!

Já não me lembro exatamente dos pedidos que costumava fazer antes de quebrar o ossinho.

Se fosse hoje, um deles seria para que momentos mágicos como aqueles almoços de domingo nunca deixassem de existir.

JOSÉ LUÍS REY, Jornalista em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos