Antes da primavera chegar

Painel de Ideias

Antes da primavera chegar

O único porém é que - também como diz a letra de Mercedez Sosa - não devemos mudar nossa essência, aquele conjunto de crenças e valores que nos transformou e continua transformando no que somos


-

A gente pode nem perceber, mas quase sempre existe um tempinho que antecede grandes mudanças e que tem como característica - além de uma enorme expectativa - a ociosidade.

Acontece com as flores, antes da primavera chegar; com as lagartas, enquanto aguardam para virar borboletas; e sobretudo acontece conosco, pessoas comuns que talvez não terão uma metamorfose bela e colorida como a das borboletas mas que, ainda assim, anseiam por mudanças.

É certo que o novo quase sempre apavora, afinal, normalmente temos medo de nos arrepender das escolhas ao deixar de lado tudo o que é cômodo e aparentemente agradável, não é mesmo?

Mas é aí que vem a pergunta: por que isso acontece? Não somos mutáveis, não sabemos nos adaptar às mais diferentes influências do meio?! Bom... deveríamos!

O problema é que às vezes ficamos tão mergulhados no ócio da espera achando que o que queremos pode cair do céu, que esquecemos do principal, aquilo que muita gente diz, mas poucas pessoas aplicam: as mudanças realmente têm que vir de dentro!

Como diz a letra da música "Todo Cambia", de Mercedez Sosa, tudo muda! Mudamos nossos gostos, as maneiras de pensar, mudamos até os nossos rumos.

É por isso que, enquanto a primavera não chega, temos que olhar mais para os lados e tentar ver as coisas de forma diferente... Frequentar novos lugares, experimentar novos sabores, incluir uma atividade diferente na rotina, deixar uma atividade que mais desgasta do que beneficia. Fazer uma nova amizade, cortar a relação com pessoas tóxicas, economizar para uma viagem bacana ou simplesmente gastar dinheiro com aquela coisa que há tempos estamos namorando...

É preciso também fazer coisas simples como deixar de lado o rock dos anos 80 e ouvir mais Alceu Valença e Ben Harper. Mudar a cor do cabelo, o lado da calçada, a marca do batom... Comprar um tênis novo - vai que ele te carrega para caminhos diferentes?

É preciso encarar as possibilidades de ter o novo como algo que não está tão distante, que não é impossível de alcançar e que pode - sim - ser muito proveitoso. Por fim, é preciso lembrar o quanto é bom aceitar um desafio e o quanto nos faz crescer.

O único porém é que - também como diz a letra de Mercedez Sosa - não devemos mudar nossa essência, aquele conjunto de crenças e valores que nos transformou e continua transformando no que somos. E, principalmente, manter aquilo que não sabemos fazer diferente - como a maneira de amar e se entregar ao que a vida nos propõe...

Ironicamente, foi numa dessas belas e marcantes "olhadas para o lado" que encontrei os dizeres mais adequados do mundo pra esses momentos de ócio que antecedem as grandes mudanças - o que me faz lembrar como é delicioso saber que alguns homens realmente sabem escolher bem as palavras:

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas... Que já têm a forma do nosso corpo...

E esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares...

É o tempo da travessia... E se não ousarmos fazê-la...

Teremos ficado... para sempre... À margem de nós mesmos..."(Fernando Pessoa)

PATRÍCIA ANDRIK, Jornalista em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço aos sábados