Setembro

Painel de Ideias

Setembro

No começo, a ideia era que em algumas poucas semanas ou meses as coisas retomariam seu rumo. Uma vez viu alguém dizer que a pandemia iria até agosto. Na época ele riu. Como são alarmistas. Um exagero. Pois aí está setembro, com seca, ar sujo e pandemia


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Da sala dava pra ouvir o velho rádio:

- "Quando entrar setembro, e a boa nova andar nos campos..." a bela música de Beto Guedes era um refresco de esperança. Deu um suspiro. Precisava respirar melhor. Encheu o peito. Ficou a olhar pela janela. Essa música só podia mesmo falar de setembro, pensou. É mês de renovação. Lá fora descia uma tarde alaranjada. O ar seco, carregado. No celular, avisos alertavam para a baixa umidade. O calendário mostrava que o inverno ia chegando ao fim. Tomara que as secas e queimadas também. O inverno acaba no dia 22. Ou seria dia 23? A primavera não começava no dia da árvore? Ah, sei lá. Sempre confundia essas datas, ele pensou. O certo é que a chuva chega em setembro. Ou deve chegar.

Esses pensamentos o animaram. Que venha a primavera! Época de muitas tradições. De diferentes povos, em diferentes épocas. Os cultos à natureza dos povos antigos, a Fruhlingsfest, na cultura germânica, o Ano Novo Lunar chinês. A própria Páscoa tem costumes vindas das festividades do início da primavera. Acontece que essa primavera não é a mesma que a nossa. A primavera do hemisfério norte acontece em maio. Por aqui, maio nos reserva o outono. Culpa dos movimentos da Terra. Cada hemisfério tem suas estações. O hemisfério norte é muito mais eficaz em legar tradições à humanidade, ele calculou.

Maio, mês das noivas (quando se aproveitava o início da primavera para celebrações matrimoniais), tem seu nome em homenagem à deusa Maia, responsável pelo crescimento das plantas. Setembro não teve a sorte de ter nome de deuses, pensou. Seu nome vem de septem (sete em latim). No antigo Calendário Romano, com dez meses, ele era o sétimo. Setembro merecia mais. Seus colegas do primeiro semestre têm nomes em homenagem a deuses e astros do firmamento (Março homenageia Marte, Junho refere a Juno, protetora das mulheres). Os nomes do segundo semestre são pífios. Decorrem de uma ordem que nem existe mais. Faz séculos que setembro é o nono mês. Coisas das tradições que permanecem, sem se preocupar com a justeza dos nomes.

Lembrou do início da quarentena. Se alguém contasse, ele não acreditaria que chegaria a setembro com a pandemia ainda lá fora. Passou meses trancado. Mas estava mais difícil ficar em casa. No começo, a ideia era que em algumas poucas semanas ou meses as coisas retomariam seu rumo. Uma vez viu alguém dizer que a pandemia iria até agosto. Na época ele riu. Como são alarmistas. Um exagero. Pois aí está setembro, com seca, ar sujo e pandemia. Ele respirou de novo. Este ano não vai ter festas. Elas serão as últimas a voltar. Mas setembro renova a esperança. A TV mostra um aparente declínio da pandemia. O insistente noticiário mostra que os números estão caindo.

Lá na cozinha, o rádio continuava: "Já choramos muito, muitos se perderam no caminho". É verdade, concluiu. Que setembro permita "inventar uma nova canção, que venha trazer sol de primavera".

SÉRGIO CLEMENTINO, Promotor de Justiça em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às sextas-feiras