Ai que I.A.

Painel de Ideias

Ai que I.A.

Apesar disso, sempre vale a pena evocar que, em janeiro deste ano, mal cogitávamos que seria possível encarar tantos meses subsequentes de trabalho remoto e como as próprias relações trabalhistas seriam modificadas por intermédio da tecnologia


Adriana Neves
Adriana Neves - Divulgação

Ao me deparar com o trabalho de grandes artistas como Caravaggio, Rembrandt, Velázquez e tantos outros, sempre me pego pensando, como isso é possível? Seria a resultante de anos laborais e dedicação apenas a aperfeiçoar a técnica da autoexpressão? Ou as grandes mentes seriam, na verdade, objetos da sublime graça e dotados de um dom que os separa dos demais?

De qualquer maneira, nos voltemos ao holandês Rembrandt, e, por meio de uma rápida pesquisa, recomendo que o leitor procure por suas pinturas e gravuras, buscando olhar com o máximo de cautela possível a acuidade com a qual é representada uma cena completa em apenas uma cena. Tenho consciência de que, mesmo que me dedicasse ao máximo para replicar o estilo do autor, dificilmente eu conseguiria mimetizar minimamente seu estilo e técnica. E justamente esse foi o desafio tomado por um grupo de desenvolvedores e programadores, frutos de uma colaboração de empresas como a Microsoft: replicar o estilo de Rembrandt para criar uma nova pintura, um retrato tirado do zero, de uma pessoa que nunca existiu, mas que se atentaria à todas características fundamentais de um retrato do pintor holandês.

Essa empreitada ficou conhecida como The Next Rembrandt ("O Rembrandt Seguinte"). Apesar do nome audacioso, sem dúvida, o resultado, entregue por uma impressora especial e com um detalhamento de 148 milhões de pixels é de cair o queixo, porém de levantar questionamentos. Se uma Inteligência Artificial pode criar uma pintura totalmente nova (digo "nova" porque o genial Rembrandt é irrepetível), qual o limite para esse tipo de tecnologia? Se nem mesmo o aspecto criativo da personalidade humana ainda se mantém como uma exclusividade de nossa espécie, o que restará ao nosso frágil ego?

Na práxis, esse tipo de experimento ainda parece muito distante de nós, da realidade cotidiana, assim como da experiência do trabalho. Apesar disso, sempre vale a pena evocar que, em janeiro deste ano, mal cogitávamos que seria possível encarar tantos meses subsequentes de trabalho remoto e como as próprias relações trabalhistas seriam modificadas por intermédio da tecnologia. Com isso em mente, se levarmos em consideração que o tipo de tecnologia que permite o home office já existe há muitos anos e ainda assim salta aos olhos mais atentos o quanto o labor, como um todo foi modificado. Justamente por essas e outras, reitero que mais do que nunca, o verdadeiro valor da educação que está escancarado diante de nós. Somente por meio desta conseguiremos nos manter relevantes em um contexto no qual a competição (ou mesmo o colega de trabalho) seja desempenhado, não por um humano e sim por uma máquina. Desse modo, sejamos como Rembrandt e nos tornemos especialistas, mestres em nossa arte, em nossa feitura e, tenhamos acima de tudo a humildade e a disposição de continuar aprendendo no curso da vida toda.

ADRIANA NEVES, Empresária em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras