A história em curso

Painel de Ideias

A história em curso

Tivemos a Revolta da Vacina no Brasil de Oswaldo Cruz, e ainda há quem defenda o movimento antivacina tão contrário à saúde coletiva, ignorando a história e, ainda mais grave, o presente. No Brasil, cegueira pouca é bobagem


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Um povo que não conhece história está condenado a repeti-la. Com essas palavras, o filósofo e orador irlandês Edmund Burke deixa a todos nós uma sábia lição: olhar para trás, conhecer o passado, aprender com as experiências são maneiras plausíveis e válidas para projetar um futuro mais palatável. Indubitavelmente, o passado encontra-se nos livros, nos museus, na arte e, enfim, nas experiências de vida dos mais velhos, os quais trazem bagagem de vida e são a memória viva de um povo. No contexto brasileiro atual, entretanto, incêndios consomem a arte, livros encaram a concorrência com o entretenimento imagético dos meios de comunicação e, por fim, os idosos enfrentam o esquecimento e a violência institucional e familiar.

O que dizer, então, de quem não conhece nem a história, nem o presente? Há duas semanas, pedi a meus alunos do ensino médio a elaboração de um diário da quarentena. Ensinei as técnicas e os formatos usuais para a documentação memorialista. Pedi a eles que mantenham tal registro não apenas como tarefa escolar, mas que o façam em nome da preservação da memória desses dias de isolamento social, afastados da escola, do cinema, do lazer. Ressaltei que as linhas de agora servirão, no futuro, como documento e como relíquia de um tempo difícil. Li o início dos trabalhos e me emocionei: a visão juvenil quanto aos dissabores da pandemia traz lições exemplares, e ignorar os relatos é sinônimo de omissão, de negligência, de abandono.

Aulas virtuais que não equivalem ao ensino presencial. Diferença no acesso à internet e aos meios para a conexão. Ambiente inadequado para o estudo em casa. Problemas de relacionamento familiar. A lista é grande, e toda essa aflição carece de amparo familiar e de ações públicas. Com os pais em privação de renda e em crise nos relacionamentos, os jovens ficam tensos, deprimidos, temerosos e céticos quanto aos relacionamentos futuros. Os efeitos da crise estão longe do fim.

Em razão de tais elementos pincelados nas redações escolares, é visível que o problema dos jovens existe e é preocupante, e medidas governamentais e sociais são urgentes se quisermos mitigar o drama de nossos infantes. Não podemos ignorar que eles sentem falta da escola, dos amigos, da liberdade de ir e vir. Pelo contrário, incumbe a todos o papel de cuidar da saúde física e mental de nossos jovens, preparando-os para o fim da pandemia. Outrora, já tivemos pestes, episódios de tuberculose, surtos. Tivemos a Revolta da Vacina no Brasil de Oswaldo Cruz, e ainda há quem defenda o movimento antivacina tão contrário à saúde coletiva, ignorando a história e, ainda mais grave, o presente. No Brasil, cegueira pouca é bobagem: há quem insista em deletar o passado e desviar os olhos do presente.

Enfim, a vida ensina quem está disposto a aprender. Precisamos cuidar dos adolescentes se quisermos ter, no futuro, uma humanidade mais altruísta, mais solidária e consciente. Uma geração que entenda o processo histórico e situacional, aprendendo com ambos a fim de saber lidar com os obstáculos. Do contrário, ignorando a história e distorcendo a realidade presencial, as pessoas só fazem perpetuar erros já há tempos arraigados e incorporados ao peso da tradição cultural, ampliando o poder destrutivo dos males momentâneos. Se Burke estivesse aqui, seu novo axioma seria: o brasileiro que não conhece a história e que ignora o presente está fadado a repetir erros e a piorar o quadro já deletério no qual habita. Vamos abrir os livros e os olhos. Ainda dá tempo.

WASHINGTON PARACATU, Professor de Língua Portuguesa e Redação em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras