Carlinhos

Painel de Ideias

Carlinhos

Foi aplaudido pela Câmara Municipal, a instituição mais legítima dos quereres de todas as classes. Uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) de vila recebeu seu nome em elogio e reconhecimento. Reputação, dignidade, respeito


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Carlinhos entrou para a farmácia aos 11 anos, na varrição e serviços de entrega. Aos 13, aprendeu a aplicar injeções. Treinava numa laranja; diziam que semelhava com à consistência dos músculos. Aos 15, já era perito em decifrar receituários com "letras de médico". Naqueles tempos, a garatuja ilegível era carta de prestígio e sapiência dos doutores. Desde menino atendendo no balcão da Central, tornou-se uma lenda na cidade. Nos 18 de outubro, Dia do Médico, as redes sociais viralizam memes com a foto do "Dr. Carlinhos", numa mescla de galhofa e admiração. Incomoda-se com isso, sempre dado à discrição. Ademais, e se um infeliz, na ânsia de aparecer, resolve supor que ele exerce a medicina?

Vem duma época em que os necessitados faziam filas ao sereno, na calçada do INPS, para obter a senha duma consulta, quiçá dali a uns meses. No sofrimento aprendido e fatalista, muitos morriam ao deus-dará. A farmácia, além dos benzedores, era o oráculo dos pobres. No romance 'Pau Brasil', Dinorath do Valle registra esse enredo de carências: O boticário João França "ouvia tudo de cabeça baixa, caneta em punho, com a paciência de homem acostumado a lidar com o povo, ouvindo detalhes inúteis". Os farmacêuticos mediam a febre, pressão, auscultavam, examinavam a garganta, pálpebras, faziam curativos, davam conselhos de higiene, orientavam nas comidas e vendiam remédios. Foi nesse contexto que seu João Baptista Salomão empregou o Carlinhos, há 50 e tantos anos.

Formou-se Técnico em Contabilidade num curso noturno. Realizou estudos em farmacologias e em laboratórios especializados da escola da vida. Passou a atender de manhã, à tarde e à noite, de domingo a domingo. Obrigações de família, gosto pelo trabalho e religioso amor à profissão. Por essas razões, ouso dizer, o amigo Carlinhos tem a pele desbotada de imigrante italiano. Mas, sobretudo, porque se tornou o eterno plantonista apartado do sol. Veste das mesmas camisas de algodão bem passado e em cores claras, calças de microfibra e sapatos negros, luzidios. O andar incansado revela-se num senhor dos cabelos cada vez mais brancos, gestos calmos e sorriso contido, tímido, num todo de aparência fidedigna que teima em despistar o tempo.

Foi aplaudido pela Câmara Municipal, a instituição mais legítima dos quereres de todas as classes. Uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) de vila recebeu seu nome em elogio e reconhecimento. Reputação, dignidade, respeito. Certa vez, numa barraca de lanches, perguntei ao dono a que horas encerrava as atividades. O Gordo respondeu com sinais de alegria e sentimentos de apreço: "Espero pelo Carlinhos, por volta da meia-noite. Pede bauru acebolado e guaraná. Paga a conta, agradece, depois some pela Boa Vista, de a pé, e não sei aonde mora". (Carlos Aparecido Pianta, Américo de Campos, SP, 1956)

ROMILDO SANT'ANNA, Crítico de arte e jornalista. Livre-docente pela Unesp, é membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos