Sobressalto & assombro

Painel de Ideias

Sobressalto & assombro

'Se o homem não aprender dessa vez, nunca mais', ouvi de alguém dia desses. Eu, francamente, penso que o 'nunca mais' ganhará de dez a zero. A natureza humana é mesquinha, rebelde, cruel. Nenhum 'novo normal', nem mesmo com máscaras, irá encobrir essas imperfeições


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Ao pé da letra, sobressalto é um baita susto, um desassossego danado, é o chacoalhão que um acontecimento inesperado dá na gente. É mais (muito mais) ou menos (pouco menos) isso. Elegante diante da vida, Elena Ferrante, (pseudônimo de uma escritora italiana que nunca confirmou sua identidade) declarou que "existir é isso, um sobressalto de alegria, uma pontada de dor, um prazer intenso, veias que pulsam sob a pele, não há mais nada de verdadeiro para contar." Contemporâneo e lúcido, o poeta gaúcho Álvaro Santestevan, confessou que "sobressalto é o medo enrustido." Deve ser por isso que a notícia da morte causa sobressalto. Quando a morte vira notícia com hora marcada, como nos telejornais, a pontada de dor, o misto de prazer e medo enrustido se espraiem pelas veias que pulsam sob a nossa pele. E aí, não há mais nada de verdadeiro para contar nessa vida do que o seu próprio fim. Mortes que impregnam os gráficos, régua de pandemia, sobe e desce macabro, curvas de lágrimas, números do apocalipse. Cada vez que a tal média móvel de mortes surge no noticiário da tevê me dá um frio na barriga. Medo enrustido. Alívio também. Estamos (eu e meus amados) acolhidos na mão mais pesada que achata a curva. Que escapa do maldito(vírus). Eita benção! E então me vem o assombro!

Ao pé da letra, assombro pode ter outros significados, mas gosto do que expressa grande espanto ou admiração. É claro que existe um sentido maior no privilégio de estar ilesa em pleno drama mundial. Passar pelo sobressalto diário dos obituários, orar e sinceramente me pactuar com a angústia das famílias enlutadas me dão uma assombrosa consciência da gratidão. Da minha necessidade de adorar a Deus e reverenciar a vida. Também me conferem a certeza de que o amanhecer, mais do que antes, agora tem a forma de um maravilhoso espanto. Um assombro a ser permitido, vasculhado, experimentado e palmilhado com generosidade e fé. Um assombro que não se procrastina. Que se vive inteirinho, e da melhor maneira.

Tenho comentado repetidas vezes aqui nesse espaço sobre a pandemia. Sobre o quanto ela escancara nossa frágil condição humana, finita. Sobre o quanto esse desastre mundial flagrou a vulnerabilidade dos sistemas econômicos e nos envergonhou ainda mais frente às

injustiças sociais. "Se o homem não aprender dessa vez, nunca mais", ouvi de alguém dia desses. Eu, francamente, penso que o "nunca mais" ganhará de dez a zero. A natureza humana é mesquinha, rebelde, cruel. Nenhum "novo normal", nem mesmo com máscaras, irá encobrir essas imperfeições. É um assombro como a humanidade não toma jeito, não se toca. Meu desejo é escrever outros assuntos. Sobre sobressaltos de ternura, sustos bons, benfazejos de esperança e paz. Por enquanto, não dá. O medo ainda está enrustido.

ELMA ENEIDA BASSAN MENDES, Jornalista, escritora e membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço aos sábados