A caminho dos 100 mil

Painel de Ideias

A caminho dos 100 mil

A maioria pensa na pandemia como uma época de isolamento, restrições e dificuldades materiais. Para muita gente, porém, o momento será marcado pela perda. Para essas famílias, a morte é mais que personagem. É narradora da história presente


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"No dia seguinte ninguém morreu". Assim José Saramago começa "As Intermitências da Morte" (2005). No livro marcante do gênio português, único escritor em língua portuguesa a ganhar um Nobel em Literatura, a morte é personagem. Aliás, a personagem principal. Em um país fictício, ela resolve fazer greve. Ou talvez tirar umas férias. As pessoas deixam de morrer. O que a princípio parecia uma ótima notícia passa a ser um problema. Os moribundos continuam moribundos, vidas já findas deixam de se encerrar. As pessoas se dão conta de que a morte tem seu papel na vida. Narrando com algum humor as diversas reações, de funerárias e seguradoras até pessoas e governo, Saramago faz uma brilhante crítica à sociedade, à família e às instituições.

No livro "A Menina que Roubava Livros", do australiano Markus Zusak (2005), a morte não é personagem, é narradora. A estória da garota Liesel Meminger na Alemanha Nazista da Segunda Guerra Mundial é contada por aquela que, com intenso trabalho na época, tinha a responsabilidade de "recolher as almas daqueles que morrem".

Vivemos tempos conturbados. Difícil é o dia em que abro as redes sociais e não me deparo com algum comunicado de luto. São pais, filhos ou irmãos noticiando o falecimento de um parente, amigos lamentando a passagem de uma pessoa querida. Não é pra menos. Desde maio, o número médio mensal de mortes no Brasil aumentou em mais de 20 mil. Culpa da Covid? Não dá pra dizer que não. Estamos a caminho dos 100 mil mortos pela pandemia. Atingiremos essa marca na próxima semana, talvez em dez dias. O número é alto. Muito alto. Na região, apenas duas cidades (Rio Preto e Catanduva) tem população maior que isso. É como se uma cidade inteira como Votuporanga tivesse sido apagada do mapa. Sim, este é um texto triste. Na minha coluna, gosto de refletir sobre a vida. Essa vida que tenta seguir com alguma normalidade (afinal não dá pra ficar parado esperando quando tudo isso vai passar). Mas não dá pra ignorar tantas histórias chegando ao fim.

Não é muito fácil falar sobre a morte. Ninguém gosta de ler sobre isso. Saramago conseguiu transformá-la em personagem quase físico. Na sua obra, a morte não assusta. Ela pensa em férias, descanso, tem vontades e planos. Ao contrário do que pode parecer, o livro é leve. Já Zusak não usou a leveza, mas o drama. Ainda assim, a morte como narradora não é o que mais assusta. Há medos maiores, como a guerra e a perseguição nazista.

Na vida real, é mais difícil pensar na morte como personagem. Ela é consequência, acontecimento. Mas ela tem sido personagem cada vez mais presente neste capítulo que escrevemos da vida. A maioria pensa na pandemia como uma época de isolamento, restrições e dificuldades materiais. Para muita gente, porém, o momento será marcado pela perda. Para essas famílias, a morte é mais que personagem. É narradora da história presente.

SÉRGIO CLEMENTINO, Promotor de Justiça em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às sextas-feiras