A lei de Gérson nos tempos da pandemia

Painel de Ideias

A lei de Gérson nos tempos da pandemia

Vejo pequenos empresários que estão perto da falência, mas respeitam a lei. Enquanto isso, alguns usam capital para locar chácaras, pagar multas baixas e rir da ação dos servidores, ignorando pandemia e morte


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Nos anos 70, o brasileiro comemorava a vitória da seleção de futebol nos gramados, e o Brasil seria o país do futuro, uma doce utopia. Nesse contexto ufanista, surge Gerson, ícone da seleção nacional, em um comercial que até hoje diz muito sobre o caráter de nossa gente: "Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também." Em inúmeras situações, a lei de Gérson, como ficou conhecido o bordão, assombra as relações jurídicas, econômicas, políticas e sociais que por aqui se desenvolvem à revelia da lei, da ética, da moralidade. A título de exemplificação, comento a vida social em Rio Preto e a ética tupiniquim, posto que a parte se faz todo na pátria de chuteiras nos pés e cigarro Vila Rica nos lábios.

Em tese, Rio Preto deveria cumprir medidas de distanciamento social, mas as ações municipais, estaduais e federais não se revelam coesas e efetivas para evitar a circulação do vírus. Na busca desenfreada pela vantagem política, econômica e individual, parte do povo faz do ego e do umbigo seus centros de referência. Enquanto todos debatem e acirram conflitos, não há diálogo, não há consulta popular, não há respaldo, e sobram acusações e jogo do empurra-empurra das responsabilidades de cada esfera de governo, de cada parcela do mercado, de cada cidadão. Muito ataque, pouca ação.

Há dois anos, mudei-me para uma chácara em busca de paz quase bucólica, o que é fato durante a semana. Nos finais de semana, algumas chácaras de aluguel são palco de festas que aglomeram pessoas unidas nas ações torpes e contrárias ao contrato social, à ética, ao respeito. Música alta, direção perigosa, insultos aos moradores locais. No sábado, alguém chamou a guarda civil municipal, que parece ter aplicado multa. Logo após, para comemorar a vinda da GCM, soltaram fogos, rojões, em direção ao pasto vizinho, atormentando animais. A polícia foi chamada, e parece ter aplicado multa aos desordeiros. No fim do dia, disseram que a festa foi um sucesso de público e crítica, com a presença da polícia e da GCM. Mais rojões para lacrar o episódio.

Por que essas pessoas não fazem a festa em suas próprias casas e bairros? Por que levar vantagem em cima dos responsáveis pelos imóveis que pedem silêncio nos contratos de locação? Aliás, por que fazer festa se há uma proibição local? A reposta: lei de Gérson. Levar vantagem no bairro alheio, importunar os outros, boicotar o distanciamento, rir da polícia e da guarda civil, impor a todos o suplício de ouvir as mesmas músicas indefinidamente. Acionadas, polícia e GCM lá estiveram e cumpriram seu papel, com limitações, pois a festa não acabou, ela só continuava após a saída das viaturas. Informada pelo servidor público que não é o momento para aglomeração, a resposta de uma participante foi: e meu direito de liberdade?

Enfim, essa gente é tão corrompida e má que se esquece de um detalhe: liberdade não é ilimitada, não vivemos na anarquia e no caos, e colocar a vida de outrem em risco é desumano, sem mencionar a pressão para profissionais da saúde, polícia, entregadores de aplicativo e para todos que estão na linha de frente. Liberdade não é carta branca para contaminar terceiros. Cético quanto a um novo final, estou proibido pelo Estado de dar aulas presenciais, sofro com isso, mas acato a lei. Vejo pequenos empresários que estão perto da falência, mas respeitam a lei. Enquanto isso, alguns usam capital para locar chácaras, pagar multas baixas e rir da ação dos servidores, ignorando pandemia e morte. Como somos órfãos de governo e de Estado, resta investir em isolamento acústico para driblar o grito, a música, o rojão e o desrespeito de tantos Gérsons espalhados por aí e seguros de si, do crime e de da fumaça tóxica que emana de suas baforadas no Vila Rica.

WASHINGTON PARACATU, Professor de Língua Portuguesa e Redação em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras