O fazedor

Painel de Ideias

O fazedor

Em 'Homem da Esquina Rosada', diz o narrador: "Então, Borges, voltei a pegar a faca curta e afiada que eu carregava aqui, junto ao sovaco esquerdo, e dei-lhe uma revisada. Estava como nova, inocente e não havia um restinho de sangue"


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'Borges e eu' é um pequeno texto confessional de Jorge Luis Borges (1899-1986), incluso no livro 'O Fazedor' (Comp. das Letras, 2008). Expõe enigmas da arte tendo como pano de fundo o real e a invenção do real. Sobretudo, oferece meios para a penetração crítica de sua obra. Poeta, professor, prosaísta, ensaísta e tradutor, foi um dos mais finos artífices das letras hispano-americanas e influenciou artistas modernos do mundo inteiro. O personagem cego Jorge de Burges, no romance 'O Nome da Rosa' de Umberto Eco é alusão e homenagem ao escritor argentino.

Expunha a diferença de si, como pessoa, e seu alter ego, o "fazedor" de literatura. Escreveu: "Ao outro, a Borges, é a quem ocorrem as coisas. Eu caminho por Buenos Aires e a esmo me demoro, mecanicamente, para olhar o arco de um saguão ou um portal de ferro. De Borges tenho notícias pelo correio e vejo seu nome numa discussão acadêmica ou num dicionário biográfico". Diz que os livros do Borges-fazedor não podem salvar o Borges-pessoa, até porque o que é bom não pertence a ninguém (nem ao autor), mas à linguagem, à tradição. E termina borgeanamente: "Não sei qual dos dois escreveu esta página".

Comumente, seus escritos são a literatura ao revés: os personagens é que falam para o Borges-fazedor. Dão a entender que a ficção tem vida própria, separada da vida real e do escritor. Em 'Homem da Esquina Rosada' (História Universal da Infâmia, 2012, Comp. das Letras), diz o narrador: "Então, Borges, voltei a pegar a faca curta e afiada que eu carregava aqui, junto ao sovaco esquerdo, e dei-lhe uma revisada. Estava como nova, inocente e não havia um restinho de sangue". Só na última frase se percebe que "quem diz" é o personagem a contar sua história ao autor. Esse conto virou peça teatral, filme e história em quadrinhos. Com malandrice, garantia: "As adaptações são melhores que meu conto original".

Quando o escritor trabalhava na Biblioteca Municipal de Buenos Aires, um colega o viu citado numa enciclopédia. Mostrou-a a Borges que se admirou com a coincidência de seu nome e data de nascimento. Onde termina a realidade e começa a fantasia? - eis a chave que abre o livro de nós mesmos pelo engenho do grande ficcionista.

Nos anos 70, assisti a uma conferência sua na PUC-São Paulo. Quase cego, olhava pra lugar nenhum. Ao término, pus a mão em seu ombro e era, sim, o Borges real. Tive mais sorte que o amigo João Alexandre Barbosa, professor da USP. Foi à capital portenha para vê-lo em pessoa. Na calçada, estudantes o vaiavam por ele ser contra o peronismo: Qué muera Borges, qué muera Borges!, gritavam. O octogenário curvo apeou-se do carro. O coro raivoso aumentou: Qué muera, Borges, qué muera! Lentamente, girou o corpo em direção à turba: Quisiera morir, pero soy inmortal. Com a bengala, empurrou a porta de sua casa e sumiu no escuro.

ROMILDO SANT'ANNA, Crítico de arte e jornalista. Livre-docente pela Unesp, é membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos