Como as mudanças acontecem

Painel de Ideias

Como as mudanças acontecem

Interessante que o Padre, quando chamado a integrar a corrente de ajuda, não perguntou qual era a religião da moça, nem as minudências da deformação. Apenas ouviu o relato, a angústia da menina, e se comoveu


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O réu, um pobre alcoólatra, frustrava as intimações. O processo não terminava. Ia para a planilha dos inconclusos, rotineiramente. Até que, pela quarta ou quinta intimação, ele compareceu ao Fórum. Pela doença, havia certa condescendência social com suas faltas. Naquele dia, ele chegou embriagado, quatro da tarde, para o julgamento por desobediência anterior. O oficial de justiça perdeu a paciência e exclamou: 'aí já é folga demais'!

Na porta da sala de audiências, o réu, de mão levantada, com a intenção de cumprimentar os presentes, tascou um 'boa noite gente'. Mirou a cadeira que lhe apontaram e seguiu cambaleante. Era forte o odor etílico. Então, os olhares dirigidos ao juiz expressavam uma inquietação comum: 'vai deixar este desrespeito sem resposta'? No magistrado, ferveu o sentimento de responsável pela preservação da seriedade do lugar. O destino daquele infeliz seria, no mínimo, algumas horas na delegacia; talvez, ainda mais, na cadeia pública.

O réu, magrinho, cruzou as pernas. A calça de tergal subiu e veio à mostra as canelinhas, fininhas, e uma pele desbotada e rachada. O olhar não era de um sujeito desafiador, comprometido com o crime. E sim, de alguém que, voluntariamente, já havia perdido sua liberdade para a droga. Antes do início da sessão, contudo, pedem a presença do juiz na sala ao lado. Era o Padre da cidade que precisava, urgentemente, de uma palavrinha.

Anunciada breve suspensão, o juiz toma um susto ao entrar em seu gabinete. O Padre, acompanhado de um fiel, portava uma lata usada, daquelas de três litros e pouco de tinta, cheia de dinheiro. Era o que ele havia arrecadado para pagar a cirurgia de uma menina com má formação genital, um caso muito grave e difícil de lidar. Naquela época, o SUS não cobria esse tipo de procedimento. Nem havia a jurisprudência das ações de remédios e tratamentos por conta do Estado. O Padre atendera a um pedido anterior do mesmo juiz e de outros munícipes, depois que a adolescente pediu ajuda para a cirurgia corretiva. 'Calma, Padre. As coisas não funcionam assim'! Disse o juiz assustado.

Interessante que o Padre, quando chamado a integrar a corrente de ajuda, não perguntou qual era a religião da moça, nem as minudências da deformação. Apenas ouviu o relato, a angústia da menina, e se comoveu. Aliás, deixou a reunião sem qualquer proposta ou promessa. Voltou, e bem no dia do julgamento do ébrio, com a quantia necessária para o procedimento cirúrgico.

Encaminhadas, devidamente, as coisas no gabinete, retoma-se o julgamento. Mas, a sala de audiências não era mais a mesma. O respeito à justiça não depende da prisão de uma pessoa doente, de um ato de força. Olhar o outro, sem se indignar com suas falhas, constitui-se pressuposto de um julgamento justo. A partir daí, aplicar a lei, na medida da conduta praticada pelo acusado. E, sempre que possível, identificar os meios para contribuir, concretamente, para o ressurgimento de uma pessoa livre, em todas as suas potencialidades.

Anos depois, aquela moça encontra o juiz, por acaso, noutro Fórum. 'Dr., o senhor se lembra de mim? Sou aquela moça...'. Ela estava radiante, com o namorado ao lado. 'Reze muito pelo Padre', limitou-se o juiz em sua resposta. Pois ele - pensou o magistrado - também ajudou a despertar uma nova justiça naquela tarde, uma justiça menos reativa, mais humana e confiante, que não se escandaliza com os defeitos dos outros, mas que vai ao encontro do que pode ser novo e belo.

EVANDRO PELARIN, Juiz da Vara da Infância e Juventude de Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às sextas-feiras