Weather Report: criatividade e antimoralismo

PAINEL DE IDEIAS

Weather Report: criatividade e antimoralismo

'Nenhuma banda soube unir e mesclar, a partir do groove, as novas sonoridades eletrônicas com a sonoridade "acústica" dos instrumentos tradicionais de forma tão flexível e original quanto o Weather Report'


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Em "O livro do jazz: de Nova Orleans ao Século XXI", Berendt e Huesmann contam que "[q]uando Joe Zawinul e Wayne Shorter fundaram, em 1970, o Weather Report, a expectativa era enorme". De fato, o grupo já nascia do encontro de dois instrumentistas sazonados e donos de currículos bastante impressionantes. Berendt e Huesmann completam que "no fim da década, veio a consolidação com o baixista Jaco Pastorius e o antigo baterista de Stan Kenton, Peter Erskine".

Do ponto de vista criativo, o Weather Report sempre foi muito prolífico e plausível. Discos como "Weather Report" (1971), "Mysterious Traveller" (1974), "Tale Spinnin'" (1975), "Black Market" (1976), "Night Passage" (1980), "Procession" (1983), "Domino Theory" (1984) e "This is This!" (1986) mostram como que, nas diferentes formações do grupo, experimentalismo e contenção se equilibram nas composições e improvisos. As texturas sonoras exploradas pelo Weather Report são sempre esteticamente justificáveis a partir desse autodomínio musical, resultado da criatividade, mas também da postura pesquisadora de seus integrantes, músicos muito talentosos e estudiosos, que caracteriza a sonoridade rica e plural da banda.

A esse respeito, Berendt e Huesmann falam em seu livro que "Zawinul considerava importante o Weather Report ter nascido na grande tradição do jazz, sobretudo na do bebop. (...) Na verdade, o elemento bebop, ainda que encoberto e transposto para a música eletrônica, pode ser percebido em todas as fases do Weather Report. Nenhuma banda soube unir e mesclar, a partir do groove, as novas sonoridades eletrônicas com a sonoridade "acústica" dos instrumentos tradicionais de forma tão flexível e original quanto o Weather Report". Nesse sentido, portanto, o som do Weather Report se constitui a partir de uma ideia de inovação muito mais ligada à expansão da musicalidade herdada dos artistas que lhe serviram de influência do que a uma ruptura radical e/ou ingênua com os padrões musicais introduzidos por seus antecessores.

Todavia, essa postura do Weather Report nunca foi unanimemente celebrada entre os ouvintes, e desagradava aos tradicionalistas. Berendt e Huesmann contam que "(...) até a sua dissolução, em 1985, as opiniões se mantiveram polarizadas em relação (...)" ao grupo, completando que "[e]m 1979, depois de uma crítica negativa da revista Down Beat sobre o álbum Mr. Gone, seguiu-se por vários meses uma discussão entre defensores e opositores do grupo". Pelo jeito, a batalha inútil de opiniões infundadas não é uma invenção recente.

O som do Weather Report desafia o gosto musical conservador, contrariando esse público fortemente moralista, de repertório simbólico minguado e sempre disposto a excluir o que lhe desagrada, mesmo que não entenda. É essa estética musical sonoramente rica, assertiva e antimoralista que torna o Weather Report tão relevante e essencial.

FERNANDO APARECIDO POIANA

Professor de língua inglesa e músico em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras