O novo homem da cobra

PAINEL DE IDEIAS

O novo homem da cobra

Palestrante. Coach. Mentor. Ele detém verdades que pode passar para você gratuitamente desde que você se inscreva no seu canal. Ele lembra você a todo instante que gastou dezenas de reais e centenas de horas para aprender o que aprendeu, mas como é muito bonzinho repassará todo esse conhecimento de graça


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De repente o homem chegava na praça e colocava uma mala no chão. E ao lado dela uma cobra. Claro, uma jiboia. As jiboias não são venenosas e são dóceis. Elas mordem e sua mordida é dolorosa, mas não mata. A cobra é o chamariz. Logo, em torno do homem, forma-se uma roda de pessoas. Então, o homem da cobra começa a falar. O linguajar e a gestualização funcionam como imã, atraindo a atenção dos ouvintes e dos transeuntes.

A tática é simples. Ele faz uma abertura, contando histórias para dourar a pílula. Cativa os ouvintes, passando o mel na boca do cidadão, aguçando sua curiosidade e, como um bom pescador, solta a isca devagarinho. As pessoas, como que hipnotizadas, acompanham seus passos, absorvem suas palavras, ávidas pelo desfecho da história que ele conta, esperando o momento em que, certamente, encantará a coitada da cobra...

Então ele abre a valise e tira de lá os vidrinhos. São elixires, unguentos, remédios milagrosos, panaceias que tudo curam... alguém sempre compra alguma coisa. Esta é a receita do sucesso. Uma vez, o dono de uma farmácia me disse: "você não tem ideia das coisas que as pessoas compram", afirmando que uma das coisas que ele mais vendia no balcão era sebo de carneiro para evitar queda de cabelos. Sim, as pessoas compram isso e muito mais.

Você acha que com o advento da internet o homem da cobra despareceu?

Não, ele continua aí, cada vez mais ativo. Ele apenas migrou. Assim como Senor Abravanel deixou as praças e se tornou Silvio Santos na televisão, o moderno homem da cobra está nas redes sociais. Facebook, Instagram, Google, Youtube, Telegram, etc.

Os truques para ganhar a atenção dos incautos foram aprimorados e gente que se considera muito inteligente (eu, por exemplo) cai como patinho em parque de diversão. Somos as novas plateias, mas agora não mais sob a sombra das árvores das praças diante de um homem, uma mala e uma cobra. Afinal, não vamos mais às praças. Já não íamos antes da Covid-19.

Agora, o novo homem da cobra é influencer digital! Palestrante. Coach. Mentor. Ele detém verdades que pode passar para você gratuitamente desde que você se inscreva no seu canal. Ele lembra você a todo instante que gastou dezenas de reais e centenas de horas para aprender o que aprendeu, mas como é muito bonzinho repassará todo esse conhecimento de graça. E mais, com o que aprendeu, com este segredo que só ele detém, seu faturamento diário, semanal e mensal cresceu três, quatro, cinco dígitos... bem estilo Tonny Robbins, o ícone.

Você fica arrepiado. Se inscreve. Se prepara. A cada minuto chega uma mensagem: Antonio, você não pode perder! Sua vida mudará! É agora ou nunca. Chegou a hora de você realizar seu sonho. Você não quer ganhar um salário de oito a nove dígitos e viver a vida que sempre sonhou...?

E dá-lhe curso gratuito. Curso de como ser feliz. De como trabalhar apenas três horas por semana e ser dono do seu nariz. De como viver na beira da praia e fazer seus parceiros ganhar dinheiro para você...

Então você se inscreve no curso grátis. Tem apenas quatro ou seis aulas e você será transformado num milionário se seguir à risca todo o conhecimento gratuito. Os caras são muito bons no que fazem. Na verdade, as aulas gratuitas são merchandising daquilo que ele quer vender para você. Ou como diria nossa avó: ele está te engabelando.

E tem gente grande nisso. Grandes escritores, filósofos, historiadores, palestrantes de renome nacional. E na ponta, estão gente como eu, os incautos que se acham inteligentes e caem nos velhos contos do vigário!

LELÉ ARANTES

Jornalista, escritor, historiador e membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço às quartas-feiras