Copacabana Palace

PAINEL DE IDEIAS

Copacabana Palace

O cortiço mais famoso do Rio foi também o mais persistente, mas não conseguiu sobreviver às aparências, quando, inspirado pela arquitetura francesa, o então prefeito da cidade decretou sua demolição. Foi em 1893 que o Cabeça de Porco veio abaixo


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"Olha, que coisa mais linda, mais cheia de graça…". Nunca estive no Rio de Janeiro, mas ouvir Garota de Ipanema me transporta para as areias das praias cariocas sob pôr do sol no Arpoador. Ser brasileiro e não ter a menor ideia estereotipada do Rio, inclusive de suas mazelas, é viver em um universo paralelo onde o Brasil jamais foi invadido pelos portugueses. E é nesse universo que vive a protagonista da série "Coisa mais linda", cuja segunda temporada foi lançada no mês passado na Netflix.

Ambientada entre o final dos anos 1950 e início dos 1960, é uma produção de fotografia esplêndida que pinça amarras sociais estruturais nas quais vivemos enredados até hoje. É assustador observar a forma como nós, mulheres, nos castramos para nos encaixarmos em uma sociedade patriarcal, violenta, estúpida e arrogante, e os melindres aos quais ainda recorremos para contornar o incontornável - isso porque não se amorna o que precisa ser implodido em seu âmago: o machismo, o racismo, o classismo.

Como célula viva desses contrastes que insistimos em reproduzir em nossas crias, replantando a semente podre de um sistema fadado ao fracasso e à frustração constantes - em prol do privilégio pútrido daqueles que limpam a bunda com o macio algodão tolhido dos culhões de deuses gregos e refrescam a barba recém-aparada com o mijo celestial de anjos nórdicos -, rascunho na aquarela de minha imaginação o gigante de seis andares suntuosos plantado na avenida Atlântica há 96 anos: o Belmond Copacabana Palace, ou simplesmente "Palace", para os íntimos.

Um palácio secular que ostenta a luxúria reprimida de seus célebres hóspedes não poderia ser tão diferente de um Cabeça de Porco, seria? Talvez, quem sabe, se trocássemos os lustres de cristal pelas lamparinas de 1880, os lençóis de seda importada pelas trouxas de algodão gasto carregadas pelas lavadeiras até o centro do pátio onde se lavavam roupas surradas, suores amargos, amores sufocados pela miséria compartilhada na moradia dos trabalhadores que, desde que Brasil é Brasil, sustentam nas costas e braços e pernas arreganhadas a indecência pudica da corte provinciana que vive latente na alma encardida dos nossos atuais herdeiros de capitanias.

O cortiço mais famoso do Rio foi também o mais persistente, mas não conseguiu sobreviver às aparências, quando, inspirado pela arquitetura francesa, o então prefeito da cidade decretou sua demolição. Foi em 1893 que o Cabeça de Porco veio abaixo, na região portuária carioca. Apenas 30 anos mais tarde, uma holding francesa abria as portas do palácio brasileiro metido a francês que receberia políticos, empresários e celebridades, fazendo vista grossa para o contrabando de hipocrisias e levantando as sobrancelhas desconfiadas aos negros e negras que se atrevessem a subir pelo elevador social sem o uniforme de trabalho.

A virulência em se extinguir cortiços, em se invadir favelas armados até os dentes, em se balear pretos a toque de caixa, em se estuprar a dignidade das empregadas domésticas em contradição ao fetiche por palácios europeus cuja diária simples custa, no mínimo, um salário mínimo, é reflexo de uma personalidade medíocre que nunca precisou fritar hambúrgueres para colocar comida na mesa da própria família, mas que, por outro lado, prefere ver alimentos apodrecendo na despensa a suprir o básico de quem realmente precisa.

Enquanto nossa sanha por uma diária em copacabanas pálaces for maior que a fome pelos direitos humanos dos cortiços, passaremos mais 96 anos pedindo o fim da corrupção e nos sentindo ameaçados por um comunismo que nunca existiu de verdade toda vez que um governo um bocado menos idiocrático permitir que os privilégios dos pobres extingua o elevador de serviço e os coloquem rumo ao sexto andar desse eterno castelo de cartas marcadas.

LETÍCIA FLORES

É professora de Língua Portuguesa, revisora e
escritora em Rio Preto. Escreve quinzenalmente
neste espaço às terças-feiras