Vários autores - Cadê o consenso?

Painel de Ideias

Cadê o consenso?

Precisamos unir esforços para debelar o vírus, a crise econômica, a crise política, ética, moral, humana. Não podemos aceitar que alguém morreu 'porque tinha comorbidades'. Não podemos aceitar que alguém foi à falência 'porque era um empreendedor pequenino e sem importância'


-

Enxugar gelo. Pedra de Sísifo. Tonel das Danaides. Não consigo mais refletir a respeito do modo leviano e patético com que autoridades, instituições e cidadãos de todos os matizes lidam com a pandemia de Covid-19. No atual estágio, as políticas públicas não atingem resultados esperados, as instituições sociais enfrentam dificuldades e percalços econômicos, tributários e sanitários, as pessoas não conseguem agir em busca do bem-estar coletivo. Para piorar, a polarização acirra os ânimos e estimula conflitos, pois muitos não conseguem enxergar coerência e verdade no discurso de outrem do qual discorda. Nesse viés, é pouco provável que o panorama melhore.

Em primeira análise, questiona-se: o que é o Estado? Sabemos que um Estado tem a prerrogativa de organizar a vida em sociedade, pois o homem, em estado de natureza, tende à barbárie e ao caos. Sabemos, ainda, que o Estado brasileiro é uma união federalista de estados unidos. Logo, a União, o Distrito Federal, os estados e os municípios contam com prerrogativas específicas para criar leis, para executar medidas, para definir rumos. Existem a Constituição e as leis federais, mas temos portarias, medidas provisórias, decisões intempestivas. Por que razão não há união entre agentes políticos? Por que motivos Presidente, governadores e prefeitos não conseguem enxergar que tão somente reproduzem a tarefa inútil das Danaides, enchendo um tonel furado que sempre se esvazia?

Em segunda visão, o que dizer das instituições e do povo? Como explicar que empresas, comércio, igrejas, escolas, clubes e tudo o mais que compõe o tecido social são incapazes de promover uma ampla frente de discussão civilizada e voltada, unicamente, para a superação da crise pandêmica? Apenas para exemplificar um setor, o das escolas, não houve acordo para definir calendário, e os professores que atuam em mais de uma empresa não terão férias concomitantes. Por que motivo as instituições pátrias não conseguem enxergar que o egoísmo tão somente reproduz o trabalho sem sentido de Sísifo, empurrando uma pedra que sempre rola montanha abaixo?

Por fim, gostaria de ver uma ação coletiva e acima de interesses partidários e ideológicos. Somos uma nação, inúmeros estados, milhares de municípios, milhões de empresas e de pessoas. Se um esforço coletivo for efetuado, danos são minimizados. Não podemos perpetuar esse clima eleitoral polarizado e essa defesa já criminosa do que não tem mais defesa. Precisamos unir esforços para debelar o vírus, a crise econômica, a crise política, ética, moral, humana. Não podemos aceitar que alguém morreu "porque tinha comorbidades". Não podemos aceitar que alguém foi à falência "porque era um empreendedor pequenino e sem importância". Não podemos aceitar a banalidade do mal, do desvio ético, da ausência de escrúpulos.

Sem que todos nos sentemos à mesa do Estado Democrático de Direito para a busca do consenso, autoridades ególatras e equivocadas de todas as esferas tão somente enxugam o gelo, cujo derretimento leva consigo os recursos, os tributos, os esforços, a vida de nossos concidadãos. Como fazem falta o diálogo, o bom senso, o respeito e a educação. Sábias são as palavras de Florestan Fernandes: contra as ideias da força, a força das ideias. Precisamos de consenso, de diálogo. A parte, sem o todo, está fadada ao fracasso. Uma lição histórica que alguns ainda insistem em negar.

WASHINGTON PARACATU, Professor de Língua Portuguesa e Redação em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras