Ódios, violências

Painel de Ideias

Ódios, violências

Estive na Igreja de S. Francisco, cidade do Porto. Patrimônio da arquitetura gótica, tem as paredes recobertas com altos-relevos do período barroco. Algumas partes foram arrancadas pela sanha napoleônica que fez do templo uma estrebaria


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Nesses tempos em que os meios eletrônicos facultam às pessoas o compartilhamento de seus ódios (no fundo, quiçá, o ódio de si mesmas), ocorre-me um livro instigante: 'Reflexões Sobre a Violência' (Vozes, 1993), do francês Georges Sorel. Não pelo que postula, mas como luneta para mirarmos horizontes do ódio, parceiro de tanta gente. Publicado em 1906, propunha uma ressignificação da violência e a tinha como legítima para as conquistas da justiça e do progresso. Em suma, a evolução só aconteceria com a mudança violenta duma fase histórica para outra. Apropriando-se de antigas teses, os fins justificam os meios.

Enquanto no mundo dos bichos o fraco é dominado pelo predador com ânsia de carne, entre os humanos a gula alimentar é mais sutil, "civilizada". A Revolução Francesa, ícone de novas eras, combateu privilégios de poucos como a causa do sofrimento de muitos. Nascida em 1789, inspirou o surgimento de repúblicas (inclusive a brasileira, num golpe militar), democracias pernetas e ditaduras ferozes de esquerda e de direita como as de Stalin e de Hitler. Entre "culpados" e adversários políticos da Revolução, cerca de 40 mil pessoas foram mortas sem direito a defesa; dessas, mais de 17 mil feneceram em praça pública pela máquina de decepar cabeças, a guilhotina. Ah, liberté!

Sob o lema da "Liberdade, Igualdade e Fraternidade", Napoleão Bonaparte invadiu nações e impôs o poder pela barbárie. Estive na Igreja de S. Francisco, cidade do Porto. Patrimônio da arquitetura gótica, tem as paredes recobertas com altos-relevos do período barroco. Algumas partes foram arrancadas pela sanha napoleônica que fez do templo uma estrebaria. Essa atmosfera de terror, lembra Laurentino Gomes no livro '1822' (Globo, 2015), subjaz nas notas soturnas da '5ª. Sinfonia' de Beethoven, no poema 'Fausto' de Goethe e na fase agônica de Goya, como o 'Fuzilamento de Moncloa' (Museu do Prado) em que madrilenhos são imolados em nome da "limpeza ideológica". Ah, egalité!

São disparos de ódio e crueldade. Aqui e ali, irromperam caudilhos infames, carniceiros, presidentes calhordas, messiânicos, muitos juízes e parlamentares venais, aristocratas toscos, gestores pão-e-circo da cultura, mandachuvas, beija-mãos e devotos fiadores dum não sei quê de liberdade, igualdade... Sempre pendurados no erário e um punhal escondido no sovaco. Immanuel Kant propôs que a violência involuntária chama-se culpa e a violência consciente, delito. Qual delas põe dum lado o vírus da ambição e de outro o veneno do ódio? Qual delas se enfeita no pôster da tragédia humana? Ah, fraternité!

Os ódios de classes, de etnias, de gêneros, pensamentos e crenças se fecundam em ovos de rancor que cidadãos insuspeitos trazem na mente e no coração. Um cara pregou a doutrina do amor e da paz, e o crucificaram. Que tempos são esses, caros amigos?

ROMILDO SANT'ANNA, Crítico de arte e jornalista. Livre-docente pela Unesp, é membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos