O tempo e os verbos

Painel de Ideias

O tempo e os verbos

Tenho sobre a minha escrivaninha um pequeno poema escrito há mais de quatro décadas pelo meu saudoso pai. Poucas linhas dele após uma grave doença com estadia numa UTI. Emoldurei o texto original datilografado


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São sempre especiais os relatos de pessoas com um fio de vida que passaram pela UTI e escaparam da morte. Medo, angústia, tristeza. Paz, conforto, esperança. Saudade, fé, impotência. Sempre me impressiona a intensidade da emoção - bornal repleto de gratidão - que caracteriza esses testemunhos. A busca e a vontade de uma nova chance movem o compasso lento dos dias e das noites dentro de uma Unidade de Terapia Intensiva. O sopro de cura ansiado é passaporte para reparos, ajustes de rotas. É oportunidade para desatar nós, liberar um perdão aguerrido, desimpedir o amor. Feitos que tanto recusamos, questionamos, expurgamos da nossa história quando a saúde está ok e as condições são propícias. Num leito de UTI as urgências são muitas. Não apenas o corpo doente necessita socorro. Em estado grave, muitas vezes, também estão alma e coração do paciente.

Tenho sobre a minha escrivaninha um pequeno poema escrito há mais de quatro décadas pelo meu saudoso pai. Poucas linhas dele após uma grave doença com estadia numa UTI. Emoldurei o texto original datilografado. Virou um quadrinho, adorno afetivo para o meu espírito. Para que eu nunca me esqueça de que a vida é boa. Preciosa, magnífica. Digna de reverência e de louvor. São assim os versos de O Tempo e os Verbos.

"Se os verbos não tivessem tempo

nem o tempo verbos possuíssem

confuso por certo seriam os dias e horas

mesmo assim, porém, o tempo passaria.

Já vivi dias sem horas

Sem minutos, segundos, sem tempo

Enfermo passei horas assim

Misturando dias, meses, confuso, enfim."

Fica fácil compreender o que estar preso a um leito de UTI significa para quem é pleno de verbos e faz do seu tempo, ação e movimento. Neste primeiro semestre de 2020 com peso de um século na cronologia da humanidade, narrativas de sobreviventes de UTI recheiam as edições dos jornais. Gente que ficou imobilizada. Vida suspensa na gangorra traiçoeira da morte. Pessoas que ficaram dias, semanas e até meses num embate trágico com a peste. Um tempo sem verbos. Disforme. Confuso, embaçado, delirante. Talvez a resenha de quem escapou por um triz possa guiar aos que andam driblando o maldito, a nós que ainda estamos livres da contaminação. Que tanto sofrimento abra nossas vias aéreas para aspirar sabedoria verdadeira. Que a dor de milhares de irmãos vivendo dias sem horas nem verbos inspire nossos pulmões a oxigenar somente bons sentimentos. Que a desgraça não seja banalizada. E depois de tudo, findas a dor e a lágrima, que o derradeiro ensinamento tenha voz de canção. Uma do Jota Quest, por exemplo.

"Basta olhar no fundo dos meus olhos

Pra ver que já não sou como era antes

Tudo que eu preciso é de uma chance

De alguns instantes.

Sinceramente ainda acredito

Em um destino forte e implacável

E tudo que nós temos pra viver

É muito mais do que sonhamos."

ELMA ENEIDA BASSAN MENDES, Jornalista e escritora em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço aos sábados