O virtuosismo despretensioso de Joe Venuti

Painel de Ideias

O virtuosismo despretensioso de Joe Venuti

Em seu livro, Morton e Cook explicam que Venuti 'era uma figura central na cena dos músicos de estúdio da Nova Iorque do período e aparece em muitos discos de bandas de baile da época junto com Beiderbecke, Trumbauer e the Dorseys'


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Os ouvintes de jazz menos dedicados ou os diligentes apreciadores da pretensa sofisticação do dito "lounge" podem estranhar que o violino tenha um papel de destaque dentro desse estilo. Todavia, violinistas importantes na música popular fizeram carreira no universo do jazz chamado de tradicional e do fusion, não só expandindo as possibilidades interpretativas do instrumento, mas também alargando os horizontes do próprio jazz como estilo musical.

Um desses violinistas do jazz é Joe Venuti (1903-1978), instrumentista virtuose e de raciocínio rápido. Em "The Penguin Jazz Guide: The History of the Music in the 1001 Best Albums", Brian Morton e Richard Cook contam que "Joe formou sua própria banda nos anos 30, e então voltou de ter servido na Guerra para aparecer regularmente no rádio".

Morton e Cook explicam em seu livro que "Venuti não era o único violinista a tocar jazz nos anos 20, mas ele estabeleceu o estilo para instrumento (...)". Outros violinistas ativos nesse período citados pelos dois críticos no livro são Eddie South (1904-1962), Stuff Smith (1909-1967) e Stéphane Grapelli (1908-1997), cujas performances e gravações definiram o papel do violino no jazz e, consequentemente, direta ou indiretamente serviram de referência para as gerações seguintes.

Em seu livro, Morton e Cook explicam que Venuti "(...) era uma figura central na cena dos músicos de estúdio da Nova Iorque do período e aparece em muitos discos de bandas de baile da época junto com Beiderbecke, Trumbauer e the Dorseys (…)". Morton e Cook dizem que a "(...) ligação mais importante [dele] foi com Eddie Lang, e embora a parceria deles tenha sido encurtada pela morte de Lang em 1933, esse foi um encontro que perdurou como poucas outras duplas. O trabalho deles tomou forma num período de tempo relativamente curto e inclui uma amostra do jazz mais divertido da sua época, peculiar e sarcástico".

Algumas das gravações que melhor encapsulam a verve irreverente do jazz de Venuti são "Black and Blue Bottom", "Wild Cat", "Beating the Dog", "Penn Beach Blues", "Cheese and Crackers", "Kickin' the Cat", "The Man from the South" e "The Hot Canary". O traço interpretativo que aproxima esses registros é a presença de uma sonoridade vivaz, bastante eloquente e muito divertida no seu equilíbrio delicado e revigorante entre despretensão e virtuosismo. Essa mistura de elementos e sensações, de técnica e de bom-humor é o que torna a música de Venuti tão contagiante e relevante.

No nosso atual contexto cultural, empobrecido e, por isso mesmo, empolado, qualquer música tocada em andamento lento, com dinâmica suave, com instrumento de sopro e vocal sussurrado/pseudo-sensual é logo exaltada como "o fino do jazz". Mas isso é só equivocado. É por isso que ouvir os discos de Venuti é enriquecedor e libertador, pois suas gravações são imunes a essa necessidade de presunção sob muitos aspectos até mesmo conservadora.

FERNANDO APARECIDO POIANA, Professor de língua inglesa e músico em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras