Os salteadores

Painel de Ideias

Os salteadores


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(Uma homenagem póstuma ao Dr. Rubens Martins Godoy)

Era uma vez um povo...

Sim, era uma vez um povo que morava do outro lado de uma enorme cordilheira e vivia da produção agrícola. Plantava e colhia café, arroz, feijão, mandioca, frutas, legumes, verduras... e tinha também criação de bovinos, equinos, suínos, ovinos!

Do outro lado havia uma grande cidade que produzia manufaturados. Tecidos, calçados, utensílios, louças, pratarias, joias, remédios, artefatos de ferro, de aço, bronze e toda sorte de bugigangas. Eles eram os comerciantes, industriais, trabalhadores liberais como médicos, dentistas, advogados, boticários... (Não gosto de usar reticências, mas aqui se faz necessário por causa da extensão das listas).

Na verdade, os dois povos eram unidos por um fator intrínseco: a sobrevivência. Um dependia do outro para sobreviver. A cidade produzia coisas que não eram comestíveis, porém eram essenciais para a sobrevivência daquele que, do outro da cordilheira, produzia comida.

Para movimentar seus produtos com um custo razoável, eles usavam uma garganta no meio da cordilheira onde, volta e meia, sofriam ataques de salteadores - grupos de ladrões que viviam homiziados nas montanhas. Era um verdadeiro inferno. Eram homens de bem, não acostumados com a violência e, por isso, sempre perdiam seus produtos e vidas para os salteadores.

Então, alguém teve a ideia de contornar a cadeia de montanhas, aproveitando uma planície, onde podiam ver os salteadores e prepararem a defesa. Eles sabiam que essa volta encareceria os produtos, mas transitar em segurança valeria a pena.

A manobra desnorteou os salteadores, que esperaram em vão. Levaram um tempo para descobrir a nova rota. Quando atacaram, foram rechaçados. Em desespero, a súcia se reuniu e chegou a uma conclusão de que se não morressem de fome, morreriam nos assaltos. Aí alguém sugeriu, brilhantemente: — que tal oferecer proteção para os dois lados?

Uma comissão deles levou uma proposta que seria ótima para os três. O povo rural e o povo urbano pagariam uma taxa aos salteadores que, em troca, lhes daria proteção na travessia da garganta, pondo um fim aos assaltos. Com este acordo, eles não precisavam mais dar a volta, os preços baixariam, os rurais venderiam mais e poderiam comprar mais dos urbanos e vice-versa. E eles, salteadores, exerceriam o papel de protetores.

E assim ficou convencionado. Na primeira tentativa de assalto, eles agiram e colocaram os concorrentes pra correr. Os grupos de salteadores passaram a brigar entre si, formando grupos que se denominavam partidos, cada um oferecendo um serviço melhor que o outro. Nem sempre cumpriam a promessa, mas a disputa era democrática. E melhor, entre eles. Os assaltos diminuíram e com o tempo todos foram aprendendo que era melhor pagar as taxas impostas e assim surgiu o imposto.

Com o tempo, tudo isso evoluiu e os salteadores delimitaram seus territórios. De um lado da cordilheira surgiu o "estado A" e do outro lado o "estado B" e criaram-se as fronteiras, novos linguajares, alguém definiu que o A era azul e criou uma bandeira para representá-lo. E o B não ficou atrás, criando sua própria bandeira e logo alguém batizou os espaços. Os tempos foram passando e clãs viraram tribos que se tornaram povoamentos e em seguida nações! Acreditaram que isso foi uma evolução, até alguém imaginar que foi ungido por um Deus e se autocoroar rei com poderes hereditários. Outro cercou um espaço de terra e disse: isso é propriedade minha.

Melhorar eu parar por aqui, porque a ação dos salteadores não parou. Eles inventaram um esporte chamado conquista e com ele, algo pior, a quem puseram o nome de guerra com direito a saques, estupros, escravidão e morte. No meio desse caldeirão prometeico e imaginário brotaram a mentira institucional, a lavagem cerebral, a pátria amada, o nacionalismo ufanista, a exploração do homem pelo homem.

E tudo voltou ao começo com os saltadores retomando a posição de salvadores da pátria.

Qualquer coincidência com a realidade mundial é mera semelhança ficcional do autor.

LELÉ ARANTES, Jornalista, escritor, historiador e membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço às quartas-feiras