Trincheiras de mim

Painel de Ideias

Trincheiras de mim

A escavação não para. Escondo-me sob a terra úmida, quente, acolhedora. Talvez vire semente e possa nascer de novo, brotar serena em meio ao caos, sem me preocupar em estar correta, sem brigar pela razão. Apenas ser - árvore, planta, flor


Letícia Flores
Letícia Flores - Reprodução

Há quanto tempo estamos cavando fossos? Desde quando estamos em guerra?

Ouço disparos, não sei de onde vem nem para onde vão os tiros: ufa, foi de raspão. Preocupam-me, entretanto, os gatilhos; o clicar dos olhares que me atravessam escaneando detalhes que podem pôr em risco minha integridade física.

É estranho olhar o panorama de prédios e telhados avermelhados e árvores salpicadas entre asfalto e muro e gente, escutar o carro da pamonha passar incólume pelos destroços de humanidade que desfilam nossa miserável cegueira, parcelada em 10x no cartão, seguido do caminhão da prefeitura que ecoa a mesma mensagem todos os dias: "se sair de casa, use máscara. Não esqueça do álcool em gel. Evite estar a menos de um metro de distância nas filas. Lave as costas da mão, esfregue entre os dedos, enxágue bem e não se esqueça de enxugar…"

As frases se repetem em looping; colocaram um comunicado no elevador implorando pelo bom senso dos condôminos; na mercearia, a mensagem é clara: "uso obrigatório de máscara", mas o dono do estabelecimento não consegue se lembrar onde colocou a sua.

Os disparos seguem. No banco da praça, bons samaritanos batem papo, fumam cigarro, comentam o exagero da imprensa, gargalham. Um deles é atingido no ombro, o sangue escorre pela camiseta alaranjada - isso não é nada, não crie pânico, é só uma bala perdida - o resto do meu corpo está em perfeito estado, fale baixo, as pessoas vão se assustar.

Enquanto isso, cavo fundo e mais fundo minhas trincheiras, esses buracos que se desmancham em vazios, minando pelas minhas ventas infinitos pontos de interrogação. Foi só um espirro que nos fez dar o primeiro tiro acidental ou será que sempre estivemos em combate? Que inimigo é esse que não se vence? Por trás de quais máscaras se esconde meu próprio umbigo? Quão medíocre é meu caráter? Quantas faces putrefatas há o capitão?

A escavação não para. Escondo-me sob a terra úmida, quente, acolhedora. Talvez vire semente e possa nascer de novo, brotar serena em meio ao caos, sem me preocupar em estar correta, sem brigar pela razão. Apenas ser - árvore, planta, flor. É possível florescer durante a guerra? Cairão, apodrecidos, meus frutos no chão? Que me importa, se, tão logo morrem, racham a semente para a ressurreição?

Não, não, menina, você não pode fugir; não adianta se esconder. É preciso aprender a tocar o samba das velas - honrar os mortos; bailar sobre minas explosivas - driblar o ódio; suar o gozo dos combatidos - reviver dos ossos.

Nas trincheiras de mim, acolho-me; das trincheiras de mim, evado-me. É preciso coragem para treinar o estômago contra o embrulho produto do sangue que escorre dos 'camisas-laranja' sem desejar-lhes morte. É preciso amor para atravessar o bombardeio sem perder a esperança, ainda que tenhamos de carregar as marcas da dor, levando os estilhaços de nós em uma sacola de algodão respingada do nosso sangue.

Respire.

Vai ficar tudo bem.

LETÍCIA FLORES, É professora de Língua Portuguesa, revisora e escritora em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às terças-feiras